Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Gayatri Mantra - Deva Premal & Miten

Despertou lentamente, ao toque suave da brisa de um novo dia. A luz entrava em um espectro de cores pela janela, como nunca antes tinha visto. Sua visão estava diferente. Todo o recinto cheirava a lavanda, seu perfume preferido.

Decidiu afastar os lençóis com suavidade, porém firmemente. Não tinha desejos de ficar, nem de partir. Mas algo chamava para fora. Algo no ar lhe soprava desígnios de um futuro que se abria. De um lugar fora do espaço, de alguma data fora do tempo...

Levantou-se. Pisou o chão. Já não parecia haver limites. Não sentia dor como antes. Nem frio. Nem fome. Em algum momento a prisão se abrira como num suspiro... talvez o último. A última prisão...

Ainda que seus pensamentos não conhecessem limitações naquele momento, algo ainda seguia sua ordem. Cada estrela, cada cometa, cada partícula ainda pulsava dentro de si. Como se fizesse parte de tudo... como se pudesse ver sem realmente ver, ouvir sem realmente ouvir.

Caminhou para fora do quarto. Seus passos pareciam tão leves, como plumas seguindo ao sabor da brisa travessa que cismava em remexer com as folhas no jardim. Era ela a mensageira da vontade de sair, seguir... pairar. Por sobre o chão... e sobre o passado.

Já não era a mesma hora... 53 minutos. A última frase que se lembrava de ter ouvido. Ou o que ouviria em seguida... Mas já não importava saber ao certo. Ainda pairava sobre o chão de madeira, ainda seguia ao sabor da brisa sem saber onde daria...

Do lado de fora, no jardim, alguém parecia esperá-la há muito tempo... 53 minutos não seriam suficientes. Queria fazer perguntas, rever todos os olhares, abraçar novamente cada um dos que vira, beijar cada um dos que tocara, ouvir cada um dos que também seguiram.

- Ainda tenho tempo?

A figura não respondeu. Apenas olhava o horizonte e sorria levemente. Parecia hipnotizada com o baile de folhas que remexiam ao sabor da brisa. Não percebia nenhuma outra presença. Sentia, mas não ouvia.

- Será que vamos nos ver de novo?...

A pergunta, agora, ecoou como a fala nas montanhas. Talvez sua voz fosse afônica para a audição do mundo comum. Virou-se na direção que tinha que seguir para finalmente partir e não olhar para trás.

Mas a figura se mexeu. Olhou em volta... não em seus olhos. Chorava, mas sorria.

- Foram apenas 53 minutos... mas não vou me esquecer de nada. – disse, sorrindo.

Sem pensar duas vezes, pairou sobre a grama verde. Seguiu ao sabor da brisa... e não olhou mais para trás.

Sabia que não esqueceria.

Deu seu último suspiro e partiu, deixando para trás sua última prisão...

Para ser livre pela eternidade.




terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sou um caso raríssimo de (des)construção de personalidade. 

Daqueles de mesmas pessoas que (sobre)vivem em um (só) corpo.

Ou vários corpos idênticos que (con)vivem em uma pessoa (só).

De uma identidade (só)lida que se constrói

a cada (res)piração de cada segundo de vida.

Um bando de (parên)teses sobre uma coisa (só). 

Não sou lá muito de conceitos, 

(pré)concebidos de algum ponto único. 

Sou de projetar a verdade para além de (pré)conceitos.

Sou responsável, mas não me responsabilizo. 

Nem eu mesma (con)fio meus fios ao que escrevo.

O que escrevo (não) se escreve...

Só.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A Cartilha

 O sol entrou imponente através das cortinas entreabertas. Havia dormido sobre o tapete da sala, ao lado da caixa recheada de lembranças. Não tinha certeza de como dormira, nem exatamente do que fizera na noite anterior. Lembrava-se da odisseia em busca de vela e fósforos, do achado da lanterna e da descoberta do passado atrás da porta... mas lembrava-se também que a aventura etílica de horas depois fizera seu corpo render-se facilmente a conclusões precipitadas - e à precipitação sobre o tapete da sala...

A luz ardeu em seus olhos ainda mais forte quando o vento brincou sarcasticamente com a leveza das cortinas. A orgulhosa manhã mostrava todo seu poder, enquanto lá fora o mundo se recuperava lentamente da embriaguez causada pela tempestade.

Seu corpo, ainda um pouco dormente, estava abraçado à lanterna usada para iluminar o papel em que escrevera aquela última carta...

“A carta!...”

Levantou-se desajeitadamente e caminhou até a janela. Os olhos arderam antes que pudesse olhar para fora... e perceber o óbvio. Todos os seus últimos sentimentos motivados por sua trajetória amorosa até aquele momento haviam voado livres pela rua, talvez pela cidade. E, pela última vez, referiu-se ao personagem mitológico que povoara seu inconsciente por todos aqueles anos. A quem endereçara confidências, desejos, sonhos... todos endereçados, na verdade, aos seus próprios pensamentos.

Inspirou e expirou o ar lentamente com os olhos fechados. Deixou que sua mente refizesse os passos até ali, como um filme numa tela de cinema. Em seguida, olhou a lanterna em suas mãos... e resolveu que não precisaria mais daquele foco artificial sobre os objetos e emoções perdidas no tempo.

Decidiu esquecer tudo aquilo por um momento, entregando-se como um robô à rotina matinal. O olhar ainda voltado para dentro, como se alguma coisa tivesse lhe escapado. Alguma peça de todo aquele quebra-cabeças estava fora de seu lugar. Talvez a autopiedade da noite anterior amolecera seu julgamento ao ponto de não lembrar-se que era responsável por todos os passos tortos que dera até ali. Passos tortos motivados pela embriaguez com os próprios sonhos, pela atmosfera onírica inebriante. Prendera-se a seu papel de vítima e esquecera que a responsabilidade por tudo que vivera estava esquecida e relegada a uma caixa atrás da porta.

Apoiando-se sobre a pia do banheiro, olhou-se demoradamente no espelho. Era um reflexo maduro, que poderia dar-se ao luxo de embriagar-se de sonhos, de suas próprias lágrimas e de vários copos de algo da adega. Uma imagem adulta, que poderia caminhar resoluta sobre a própria história sem tropeçar. E, ainda assim, via-se tão inocente quanto uma criança que vê seu reflexo pela primeira vez.

Ali mesmo, diante dos olhos que deveriam enxergar-se como eram, esqueceu-se do cansaço. Esqueceu-se das mágoas, das desilusões, de todo o apelo do ego - ao qual sucumbimos quando estamos bêbados de nossos próprios sentimentos, naquele estado em que nada mais importa do que sentirmos para além de nós mesmos. Não queria mais embriagar-se de si... queria viver para além do ego.

O som da campainha quebrou o encanto de seu devaneio. Foi até a porta como quem já esperava visitas.

Por um momento, pensou ver seu reflexo, mais uma vez...

- Sim?

- Bom dia. Peço desculpas por importunar esta hora da manhã...

- Não importuna... – silêncio. – Ahm... Você...

- Moro no apartamento ao lado. Acabei de me mudar.

Olhou aquela figura com certa descrença. Não que sua presença àquela hora da manhã não fosse bem-vinda... mas... que presença?

- Achei por bem avisar deste pacote à sua porta.

Outra caixa...

- Agradeço.

Não estava esperando pacote nenhum. Mas nele estava escrito seu nome. Sem remetente. Olhou para o corredor do andar, e novamente para a figura desconhecida em frente à sua porta. Algo parecia familiar...

Rasgou o papel como uma criança que abre seu presente. Abriu-a com curiosidade. Retirou de dentro dela um objeto e um papel com alguns escritos.

Franziu as sobrancelhas, achando tratar-se de uma piada. Mas os escritos eram muito sérios.

*

Tu não precisas mais de mim... pois sabes do que precisa. Entrego-te meu ofício para fazeres dele o que desejares. Mas lembra-te: ele só pode ser usado uma única vez. Ainda que tenhas várias chances, o caminho é um só... e tu já sabes qual é. Entrego-te a cartilha como me entregaste a carta. Sabes o que deves fazer. Abra-te como abriu este presente... como uma criança.

Com amor,

Cupido

*

Olhou para dentro da caixa descrente. Ao colocar a mão para retirar o objeto, espetou o dedo em algo pontudo. Em um movimento automático, levou a mão à boca para sugar o sangue. Mas a dor foi muito maior do que apenas um corte no dedo. A dor foi como se tivessem lhe perfurado o coração.

- Você está bem?...

Quando deu por si, estava recebendo socorro de alguém que ainda não conhecia... Alguém a quem enxergava com os olhos de criança.

- Senti uma dor estranha no peito... mas acho que não é nada.

- Pode ser grave. É melhor chamar alguém...

Colocou a mão no peito para amenizar a dor.

- Não... não há ninguém para chamar.

- Então ficarei com você por um tempo.

- Não... não precisa...

- Não fico porque preciso... fico porque quero.

E sorriu seu sorriso mais lindo. O sorriso descompromissado de quem já soube se abrir para o mundo.

Abriram-se pelo resto do dia.

Abriram-se por outros dias.

Abriram-se por longos anos.

Abriram-se para ver sonhos alçarem voos pela janela...

E finalmente decidiram abrir-se para escrever cartas de uma nova história...

Para escrever a cartilha como bem entendessem...


Como se pela primeira vez.




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Carta

Já não era mais um aprendiz...

Era o que tinha de ouvir toda vez que, em desilusão, voltava às barbas do velho mestre para vislumbrar um novo caminho.

“Não existe caminho certo nem errado... pois o caminho é um só. Basta que saibas disso, e estarás sempre rumando para onde deves chegar.”

E aquelas eram as palavras que martelavam em sua mente desde que saíra num mundo desconhecido e vazio de paixões. Ah, que árduo ofício o seu, em um lugar onde pessoas se procuravam por caminhos tortos e que não sabiam enxergar-se quando se encontravam! Já se cansara de vaguear, em noites enluaradas ou no profundo breu, em ventanias e tempestades, em brisas mornas e no chão coberto da mais cruel solidão. Camas continuavam vazias de intimidade ou cheias de corpos que se encontravam, mas não se preenchiam. Amores que não sentavam à mesa, que não desvelavam a cortina dos segredos, que não olhavam no fundo dos olhos. Amores, enfim, que não se “abriam”, no sentido que o mestre havia muito bem dito quando ainda era um aprendiz.

Mas já não era mais um aprendiz... já não era... não era? Ainda não se convencera. Não se convencera de que não era preciso aprender e deixar-se apreender todos os dias pelo mesmo sentimento. Que não era preciso olhar com os olhos inocentes a cada novo dia, a cada novo dormir e acordar naquele tempo que não era um tempo. E mesmo que se esforçasse, mesmo que soubesse como deveria agir, parecia não obter sucesso em todos aqueles anos humanos.

Sim, houve olhares, beijos, toque e sexo. Paixão... muita paixão. Patologicamente vivida, em mesma raiz. Inebriante, sublime, até um pouco incômoda... mas era verdade que, por mais que quisesse fazer alcançar o patamar seguinte e ao mesmo tempo ao lado – o Amor – não fora capaz de fazer dar o passo adiante. Sim, pois na paixão não é preciso abrir-se. Na paixão saem espontaneamente as faíscas, brilham numerosas as estrelas, exalam as essências das flores ao redor. No amor, não. É preciso enfrentar a tempestade para ver faiscar o céu, é preciso dissipar as nuvens para ver estrelas, é preciso enfrentar os ventos do inverno para ver florescer a primavera e seus odores. E ninguém quer mais aprender a perder para poder ganhar...

*

A noite estava mais fria que de costume, o que fazia da sua vigília algo ainda mais estarrecedor. Do alto podia ver a cidade toda e cada um dos “não mais aprendizes” em seus postos, sedentos por algum resultado. Talvez tivessem - também eles - perdido a noção do que era verdadeiramente importante...

Olhou seu reflexo na vidraça da janela. Por um momento, esqueceu-se do que deveria observar e inspirou-se na visão instintiva de um aprendizado que perdera. Mundos que se misturavam, mas que não existiam um para o outro. Assim como os mundos pessoais que se esbarravam acidentalmente, mas que sentavam à mesa sozinhos, declamavam um novo monólogo a cada manhã, jogavam o corpo em camas vazias de intimidade... com o outro e consigo mesmos. Tudo o que era comum e incomum... num só reflexo.

Por trás daquele reflexo estava, enfim, o que deveria observar. A chuva torrencial escorria pela vidraça, dando um ar psicodélico ao mundo lá dentro. Um raio fez cair a energia em boa parte do bairro... e foi quando pôde ver, finalmente, a verdadeira essência daquela cena bucólica. Aproximou-se para não perder nada, enquanto via o seu tatear no escuro, a procura por fósforos e – finalmente! – o encontro com o passado nas cartas. Não sem antes aquele chute de desabafo no objeto inerte. Era preciso, de qualquer forma. Já havia sofrido demais...

“O caminho é um só.”

O mestre dizia. Qual caminho seria aquele? O de tatear no escuro, de chutar caixas esquecidas, de enfrentar passados não revelados?... Precisava entender para que todos entendessem. Era preciso enfrentar o escuro agora. Alinhar-se com o escuro dentro. Somente por entre clarões de raios era possível ver, por milésimos de segundo, as expressões atrás da vidraça.

A caixa foi aberta e as cartas, finalmente, relidas. E reliam ao mesmo tempo. O mundo dentro e o mundo fora. A carta e a cartilha. Depois de todos aqueles anos humanos quase perdidos, pôde sentir brotar em si a lágrima da gratidão... Apesar de não ser fácil ouvir aquelas palavras todas de novo.

Pousou a mão sobre o peito e fechou os olhos enquanto liam. Choraram. E ele pôde, finalmente, entender.

“Talvez ele se referisse ao único caminho a seguir... seguir em frente. Caminhar, apenas. Sabendo para onde, sem deixar de caminhar. O caminho era um só: decidir continuar caminhando no caminho escolhido. Um caminho, apenas.”

Ouviu o ranger do trinco da janela. A chuva amansou, curvando-se ante a atitude corajosa de entregar-se. Da carta escrita um avião foi feito para finalmente alçar voo.

Abriu os braços na esperança de recolher mais aquela carta... e a acolheu tão logo foi jogada noite adentro pela janela afora. Sentou-se no parapeito e leu sem se dar conta dos anos humanos.

*

Caro Cupido,

Muito tempo se passou desde a última carta que lhe escrevi. Cartas de uma escrita impecável e de escassez de sentimento. Não me preocuparei com a simetria agora... apenas com a empatia. Parei de escrever talvez por ter deixado de acreditar há tanto tempo, por pensar nestes anos todos que finalmente havia recebido o que pedi. Mas a verdade, meu querido cupido, é que me iludi por acreditar que o amor é o algo facilmente alcançável com uma simples conquista. Esqueci-me de que é preciso enfrentar a escuridão, levantar-se todos os dias com a inocência para poder enxergar. Achava que não precisava. Achava que era coisa de livro de autoajuda, de psicologia barata, daquela velha cartilha mofada no fundo do armário.

(...)

Não queria ter sofrido menos... o sofrimento sempre me fez crescer. É verdade que a descoberta só vem quando somos capazes de assimilá-la. Antes não teria... não teria como. Pensava só em mim, mesmo escrevendo sobre o amor... sobre o amor que eu julgava ter, o amor que julgava conhecer.

(...)

Não é doce acordar do sonho. Não é belo ter que enfrentar o que não saiu como planejamos. Ah, quisera eu não ter esse conhecimento tão piegas e pífio sobre o meu próprio passado! Achando-me o ser mais informado do mundo, engrandecendo meu próprio ego e me esquecendo do principal: olhar o outro. Tentando achar palavras que justificassem o amor que julgava ter por mim... e não tinha. Procurando sentido nas cartas de amor cuidadosas que escrevia. Mas não havia amor... nem pelo que estava fora, nem pelo que estava dentro. Tinha apenas um sonho, e nenhuma vontade de abrir-me para que ele realmente acontecesse. Como uma criança mimada, quis apenas suprir carências. E é neste ponto, Cupido, que eu lhe confesso: sua ajuda me fez ver que o amor acontece apenas onde é bem-vindo.

*


E, com os olhos em lágrimas de purificação, decidiu que já não era mais necessário. Recolheu seus instrumentos e, segurando junto ao peito a carta lançada da janela, entregou-se ao abismo da sua absolvição.





sábado, 2 de novembro de 2013

Segundo

Tropeçou grosseiramente, em meio ao breu, no objeto cúbico mal posicionado atrás da porta do quarto dos fundos. A topada certeira acometeu o dedo mindinho, o que fez com que soltasse um palavrão de desabafo - como se maldizer o ocorrido fosse amenizar a dor.

Já não tinha mais a quem culpar pela desorganização da casa ou por caixas pesadas esquecidas atrás da porta do lugar onde estavam vela e fósforos. Tão pouco maldizer o passado faria o sofrimento ir embora. Um passado não tão próximo como a topada no dedo mindinho, nem tão distante quanto o início daquele grande amor. Um amor que durara anos, em meio a palavras de amor e palavrões.

Por sorte, encontrou uma lanterna ao invés da vela e dos fósforos. A lanterna ajudaria a manter o foco no que fora ali fazer. Por certo a vela teria trazido memórias que preferia não acessar. A tempestade desabava sobre a cidade no início da noite, e não era mais possível ouvir nada além dos trovões, do som da água caindo e os próprios pensamentos.

Após um ano completo, pensava já ter se livrado da dor. Aquele era um mundo no qual se cobrava força, coragem e paz de espírito, apesar dos pesares. Sempre fora uma figura forte, com passos firmes que nunca tropeçavam. Naquela noite, tropeçou desajeitadamente na maldita caixa atrás da porta. Lembrou-se, com certo sofrimento, de que deixara pegadas marcadas demais sobre aquela história. Como se tivesse pisado sobre seus sonhos, sobre os sonhos dos dois e sobre a possibilidade de realização de qualquer deles. Era um fardo pesado demais para carregar, mas o mundo lhe cobrava a resiliência. Não foi fácil, mas em apenas três meses era como se aquele grande amor nunca tivesse acontecido. “Outros amores virão”, era a frase que ouvia repetidamente daquele mundo que achava que tudo sabia. Não queria outros amores... Queria simplesmente amar-se naquele momento.

Não pensava que a culpa fosse totalmente sua. Não era. Talvez não houvesse culpa. Talvez houvesse apenas cobranças demais e amor de menos. Não, o amor era suficiente... mas cada um fora incapaz de deixar de olhar para as próprias pegadas e entender que, na verdade, o importante era apenas caminhar juntos.

Sacudiu a cabeça e chutou a caixa, como se para espantar aqueles pensamentos. Com o choque, a lanterna soltou-se da mão, caindo com seu foco sobre a caixa. Teve de abaixar-se para pegá-la, ficando cara a cara com o objeto. A tempestade ainda abafava todos os sons da cidade, e pôde ouvir claramente dentro de si: Abra-a. Como se uma enxurrada estivesse prestes a carregar tudo, agarrou-se à caixa como se disso dependesse sua sobrevivência. Abriu-a em apenas um segundo...

Em um segundo, quilos de passado revelaram-se ante seus olhos. Algo que havia sido esquecido há tanto tempo, e que remetia ao início de todos os seus medos, seus anseios e seus desejos. A caixa, estranhamente esquecida atrás de uma porta, estava repleta de cartas escritas há muitos anos.

Não se lembrava de ter escrito tantas cartas naqueles anos de relacionamento. Perguntou-se por que elas não foram divididas na separação, ou sumariamente queimadas em latas de tinta – a mesma tinta usada para cobrir escritos de amor nas paredes. Não havia razão para estarem ali, intactas, convictas, resolutas. Depois de tantos anos de pegadas sobre sonhos, havia deixado aqueles para trás. A curiosidade foi maior do que o medo de revirar aquele baú metafórico de memórias. Vasculhou as cartas com o cuidado de quem manuseia um tesouro.

Não eram cartas de amor, como esperava. Eram cartas que descreviam todos os sentimentos que tivera em cada um dos seus relacionamentos. Cartas endereçadas a alguém em quem acreditava, revelando segredos que nunca poderiam ser remetidos. Uma carta toda primeira segunda-feira de cada mês... Reveladas em um segundo.

A tempestade fora se tornou tempestade dentro. A enxurrada de sentimentos levou embora a falsa pretensão de força e coragem. Nunca em sua vida pensou conseguir tamanha sinceridade consigo. Chorou lágrimas de anos em que brigara com as próprias atitudes, em que evitara entrar em contato com a própria dor por meio de alguns palavrões falados ao vento e outros tantos chutes no desconhecido.

A água do céu tornou-se música, enquanto sua sinfonia ia aos poucos cessando em pianíssimo. A água do coração ainda jorrava através dos olhos, lavando expectativas não cumpridas. Ao dobrar e envelopar a última carta, olhou pela janela e sorriu. Correu como uma criança travessa à busca de papel e caneta, e escreveu em quase um segundo sob o foco da lanterna, sem se dar conta de que a cidade já se iluminava.

Escreveu e assinou. E pensou: “Esta será remetida.”

E dobrando-a em forma de avião, fez com que seus sonhos alçassem voo pela janela.






domingo, 29 de setembro de 2013

"No início era o verbo"...

Esperou com olhos arregalados que a descoberta começasse.

Há tempos vinha esperando por aquele momento. Arrepiava-se ante o vislumbre do mistério, do desvelar-se de tudo que fora guardado detrás de sombras... e de luz.

Respirou por três vezes e tentou se acalmar. Do contrário sua ansiedade o faria perder alguma palavra, algum momento. O mestre ia falar...

- Podemos começar?

- Claro, claro... – disse, nervoso, ajeitando sua posição.

- Certo. Já sabes o que mais deves saber?

- O que mais? – ficou confuso. – Não posso saber mais, pois ainda nada sei. O que mais devo saber?

- Mais do que sabes, bem se vê!... Quis dizer: já sabes o que de mais importante deves saber?

- Ah, sim! – agora tudo fazia sentido. – Devo saber do que se trata a essência do Amor.

O mestre manteve-se em silêncio. Olhou-o calmamente no fundo dos olhos, como se quisesse dali arrancar a petulância de um aprendiz tão cheio de si. Em seguida, uma gargalhada atingiu seus ouvidos de iniciante, vinda da garganta do mestre sempre sisudo. De fato, a cena mais grotesca que já vira na vida. Ajeitou, mais uma vez, sua posição. Respirou por mais três vezes. Do contrário, teria gargalhado junto... ou chorado ante o terror daquela carranca.

O mestre ia falar...

- Meu caro, não há nada mais custoso do que compreender a verdadeira essência do Amor. Pois ele, em si, é dúbio, incoerente, insensato e por vezes inóspito.

- Como assim?... Não seria o Amor o sentimento mais sublime que existe?

O mestre não discordou ou tão pouco concordou.

- Ficará mais fácil entender se elevarmos o Amor ao status de ação: AMAR. O Amor, per se, não passa de um sentimento estanque, estático. Um estado que na verdade não existe. A ilusão de estar num estado de Amar. Em verbo movimenta-se, expande-se, extrai de um momento a continuidade.

Só conseguia anotar. Prestar atenção sempre fora seu forte... Mas aquilo precisava anotar, para nunca mais esquecer.

- Mestre, entendo quando fala do Amor como verbo, como ação. Nossa função seria, portanto, manter o Amor como ação, isto é, em perfeito movimento de Amar?

O mestre cruzou os braços em frente ao peito, satisfeito.

- Vejo que já entendeste tua primeira lição: Manter o Amor em perfeito movimento de Amar. E este perfeito movimento requer...

Interrompeu a frase no meio. Pela sua expressão, esperava que completasse a frase.

- Requer... Ahm... Requer...

Os braços cruzados de satisfação desfizeram-se em um clamor aos céus.

- Tempo, meu caro, tempo!... Mas não somente o tempo, pois ele é capaz de desgastar o Amor quando esse ainda não é verbo. A continuidade do perfeito movimento requer a flexão de vários outros verbos: doar-se, entregar-se, apegar-se, expressar-se... compreender, aprender, ceder... falar, calar... ouvir... E, meu predileto: ABRIR.

- Abrir, mestre?

- Sim, abrir. Amar se trata, principalmente, de abertura. Abrir-se para mudanças, abrir sua vida para outra pessoa, abrir mão do próprio ego. Ninguém é capaz de Amar e receber os benefícios do perfeito movimento se não for capaz de ABRIR seus pensamentos, sua alma e seu coração para o novo, para o intangível e inseguro, para o escuso, o imperfeito e o obscuro.

- Não tinha ideia de como Amar poderia ser tão luminoso... E ao mesmo tempo tão sombrio.

- É certo que é preciso haver luz para que haja sombra... Mas nos esquecemos de que é preciso conhecer a sombra para entendermos a luz.

Suspirou.
Pensou por alguns instantes.
O mestre não interferiu. Esperou que ele falasse.

- Mestre... – disse ele, um pouco triste. – Se Amar é mesmo tudo isso... Poucas pessoas amam de verdade.

O mestre sorriu.

- Eis nossa grande função, meu caro. Se pretendes contribuir para que o perfeito movimento nunca cesse... Assegures-te de que todos os fatores estejam presentes quando desferires teu golpe certeiro. Tua chance é uma só, ainda que o Amor tenha várias chances. Não sejas frívolo em tua pontaria. Do contrário, o mundo apenas ficará repleto de paixões sem sentido.

Levantou-se convicto. Fez uma reverência ao mestre.

Antes de sair, respirou por mais três vezes...
Do contrário, estremeceria em sua pontaria e encheria o mundo de paixões sem sentido, nada mais.


“No início era o verbo”...





quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Tempo e a Espera


Sentou-se à mesa mais confortável que encontrou, perto da grande vitrine que dava para a rua. Era costume seu – talvez pelos últimos... hum... dois anos, mais ou menos – sentar-se em algum café da cidade aos finais de tarde, quando o mundo lá fora corria para alcançar algo que não se sabia o que era. Talvez corresse atrás do tempo ou para chegar antes, ou quem sabe ainda para adiar os acontecimentos. O motivo não importava: o ritmo era frenético e, quase sempre, injustificável. Por que correr se, em algum momento, todos chegarão onde querem?
O cansaço parecia ser o senhor de toda aquela ansiedade. Olhos não se encontravam, mentes divagavam, e quando um corpo tocava outro era por algum esbarrão pela falta de espaço para a correria (atrás de algo que não se sabia o que era). Muitas vezes, não havia nem tempo para pedir desculpas ou fazer um comentário simpático como “Ah, esta correria!”. Não, cada qual continuava no próprio ritmo frenético.
Não participar daquela “normalidade” forçada fora uma resolução sua. Por isso sentava-se quando todos corriam. Todas as tardes adentrava um dos cafés da cidade, sentava-se perto da grande vitrine que dava para a rua (quando não tinha vitrine, ficava ao lado da porta mesmo) levando consigo um livro e um celular. Daqueles que traz tudo à disposição: falar, escrever, navegar, escutar... ou ignorar, quando fosse o caso. Bastava um clique num botão, e todo um mundo desaparecia. Um mundo onde as pessoas só não corriam porque deviam ficar paradas fisicamente para usufruir dele.
Gostava de lidar com coisas diferentes, mas intrinsecamente iguais. O livro e o celular, por exemplo. Dois mundos, dois tempos. Gostava de revezar entre um e outro, brincar de ir e vir de passado para presente, presente para passado, confortando-se por não saber nada a respeito do futuro. Não tinha como saber quem seria a próxima pessoa a passar por sua vitrine-tela ante seus olhos, não podia saber como seriam seus filhos e netos (caso os tivesse), qual seria a próxima descoberta da Ciência, ou se o seu vizinho de mesa espirraria às suas costas. Não tinha controle sobre nada... A não ser sobre o livro e o celular. Ainda assim, eles frequentemente lhe pregavam peças. O livro mais que o celular em termos de personalidade. O celular mais que o livro em termos de temperamento.

- Desculpe pelo atraso. É impossível transitar pela cidade neste horário... Demorei muito?

O café quente que trazia com delicadeza à boca ardeu-lhe por todo o aparelho digestivo. Dera um enorme gole devido ao susto. O líquido vazado da xícara despejada com força sobre o pires ardeu sobre a madeira da mesa.
Não conseguiu falar palavra durante alguns milésimos de segundo. Só teve tempo de recolher o livro e o celular para que não ardessem também com o café.
Olhou em volta.

- Olha, acho que você se enganou de pessoa.

O ser não identificado também olhou em volta. Mas olhou mais para dentro de seus olhos.

- Eu nunca me engano.

Não gostou nada da petulância daquele ser que era aparentemente contraditório: corria para não chegar atrasado e logo em seguida sentava-se quando todos corriam. E sentava-se à mesa errada.

- Pra tudo existe uma primeira vez... E esta é a primeira.

- Não, tenho certeza que não me enganei. Você não estava à espera de alguém?

Entreabriu os lábios para responder, mas conteve a voz na garganta. Estava? Nunca ficara sem responder a nada de pronto. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua... nunca uma dúvida no fundo da garganta.

- Eu...

- Então, fique feliz, pois sua espera terminou. Não era o que você queria? Estou aqui...

- E o que você sabe sobre a minha espera? Você, alguém que entra sem aviso, chega à minha mesa sem permissão e ainda me faz perguntas que eu não sei responder?

O ser sorriu sarcasticamente.

- Pra tudo existe uma primeira vez, não é mesmo?

Ah, não, aquilo era de tirar do sério!

- Alguém que, ainda por cima, tem a petulância de usar minhas palavras contra mim! Quem é você, afinal?!

- Ora... Você ainda pergunta?... Eu sou quem você estava esperando.

Suas sobrancelhas, curvadas ante o ímpeto de levantar da cadeira e juntar-se, pela primeira vez, à correria desenfreada de pessoas que não se conheciam, cederam ao relaxamento. A frase, apesar de absurda, parecia fazer sentido. Há muito esperava, toda vez que se sentava em um dos cafés da cidade aos finais de tarde, por alguém que acalmasse sua pressa e reparasse em sua vigília voluntária. Pela primeira vez (quantas vezes ainda repetiria essa expressão?), alguém olhava em seus olhos e dizia que estava ali para cessar sua espera.
Olhou para o café derramado sobre a mesa. Mirou o livro e o celular repousados sobre seu colo. Olhou os olhos que não miravam nem para o café, nem para o livro ou para o celular. Aqueles olhos miravam os seus.

- Por favor, sente-se.

Sentou-se bem de frente na cadeira vazia, sem desviar o olhar.

- Há quanto tempo está aqui?

- Mais ou menos uns dois anos.

- Por que esperou tanto? Por que consumir xícaras de café, páginas em papéis e em telas se, no fim, apenas seu tempo foi consumido?

Engoliu a dúvida no fundo da garganta, que agora virava tristeza.

- Não há justificativa...

- A espera é justificada quando aliada ao tempo. Lá fora alguns correm contra o tempo. Ignoram-no e acabam se tornando escravos dele. Aqui dentro você tem todo o tempo do mundo... E só espera.

O líquido amargo acumulou-se no canto do olho.

- Quem é você?

- Acho que já respondi a esta pergunta.

- Mas... Quem eu esperava? Nem eu sei dizer...

- Esta pergunta só você pode responder.

Chorou dois anos em dois minutos. Secou os olhos por baixo dos óculos. Pegou o livro junto ao peito por baixo do casaco e colocou o celular no bolso da calça. Levantou-se sem dizer nada.

- Vai embora?

- O tempo não volta atrás... Já esperei o que tinha que esperar. Tenho tempo, por isso não vou correr. Vou apenas justificar minha espera...

Seguiu para a porta.

- Espera!

De costas, esperou que se aproximasse.

- O tempo é seu aliado agora, lembra-se? Vou com você.

Sorriram. Chovia torrencialmente.
Olharam nos olhos.
Deram as mãos.

E, sem abrir guarda-chuva, seguiram pela rua em seu próprio ritmo.