Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Diga que ama...

Diga que ama a quem ama.
Diga, mesmo que pareça banal.
Diga, mesmo que você não esteja assim tão inclinado a falar todos os dias... diga, assim mesmo.
Diga sem economizar pontos de exclamação, sem tentar se proteger de sentir. Afinal, o que de tão ruim pode acontecer a você por se entregar?
Diga! Mas diga de verdade, não para receber algo em troca.
Diga! Mas diga com convicção, para não ser desmentido depois.
Diga olhando nos olhos, com palavras e gestos vindos de todos os cantos de quem você é.
Diga de forma arrebatadora, de forma discreta, de um jeito inocente, com os lábios trêmulos, com a voz embargada, com lágrimas nos olhos... Diga! Da maneira como quiser... mesmo que lhe custe o ego.
Diga... mesmo que nada ouça, mesmo que nada veja ou toque em troca. O amor vai além da posse, do entendimento... vai além, muito além de envaidecer-se. Perpassa pelo corar-se, pelo preencher-se, pelo soltar-se, pelo não caber em si... Viajar sem querer, perder-se e encontrar... a si e ao outro. Pois quem ama e demonstra, mesmo que não correspondido, encontra dentro de si a força de revelar-se, de amar a si mesmo.
Diga na frente do espelho, ao pé do ouvido, no canto da boca, debaixo dos lençóis...
Diga com a força de mil sóis, com a paz necessária para aquietar o coração quando a única resposta é: Não.
Nem sempre amar e ser amado é possível... Caso em que amar-se é sempre a melhor solução.
Amar-se sempre, para sempre... Para conseguir amar ao outro.
Amar o outro sempre, para sempre... Para conseguir amar a si mesmo.
Eis o ciclo infinito chamado amor... que não desgasta, não envelhece, não retrocede, não se vicia, não aprisiona, não amarga e nem desaparece... enquanto for amor.
Ame...
E diga que ama a quem ama...
de verdade...

sábado, 30 de março de 2013

Through Glass - Stone Sour


Corria para poder alcançar o que parecia inalcançável. Nem mesmo o vento contrário podia impedi-la em sua intenção de chegar antes do tempo, sobrevoar a cidade com os pés de Zéfiro...

Sabia que havia outros meios melhores de conseguir chegar, que a levariam além das próprias intenções, mas não conseguia mais pensar... somente sentir o aperto que a deixava quase sem ar. Tinha que correr para poder respirar, correr para continuar vivendo. Não podia e nem queria conter aquele sentimento arrebatador que a tomava por completo.

Não sabia o que aconteceria depois. Talvez aquela não fosse a melhor maneira, ou talvez tivesse sido melhor deixar as coisas como estavam. Algumas palavras rudes, algumas fotos jogadas ao vento do sexto andar... E já não teria mais aquela paz que antes tivera, de poder ver roupas e vinis jogados pelo chão. A paz de estar sozinha, aquela paz que ela tanto quisera durante os últimos meses, agora parecia uma faca apunhalando-a pelas costas. Não era o que queria... Será que era melhor deixar as coisas como estavam?...

Pensava... e corria. Não era possível parar de correr. As pernas já seguiam sozinhas em direção ao aeroporto. Esquecera as chaves do carro e do apartamento vazio. A mobília fria, sem o calor dos corpos quentes de desejo em noites de outono, falava verdades que ela não queria ouvir. Não tinha sido culpa de ninguém, cada um fizera o que podia. Cada um agira de acordo com seus medos escondidos, esquecendo-se que em algum ponto do meio estava o amor que cultivavam há pouco mais de dois anos. Cada qual com suas feridas abertas, sangrando sobre letras de músicas que não eram sua trilha sonora. Pararam de enxergar um ao outro para ver apenas a si mesmos e sua culpa... Mas não tinha sido culpa de ninguém.

O vento soprava ainda mais forte. No horizonte uma tempestade prateada se formava. A vontade de Zéfiro a levava para frente... e ela sabia que chegaria, nem que fosse em pedaços. Pequenos pedaços não recolhidos de si mesma. Não havia outro lugar que queria estar a não ser naqueles braços que conhecia tão bem e ainda queria. Braços que reconheceria pelo calor, pelo toque e pela intenção dentre milhões de outros. Os que ela queria...

O vento soprava tão forte quanto naquela tarde em que levara embora as imagens impressas de memórias que ela conhecia tão bem... Mas que não queria mais.

Tinha que correr para continuar respirando... respirar para continuar vivendo. Ainda que seu corpo estivesse preparado para o esforço, a emoção conferia uma dificuldade a mais que quase lhe turvava a visão. Não sabia se chegaria... E, se não chegasse, perderia para sempre o que tanto queria. Olhos, lábios, cabelos, braços... uma vida ainda não ocorrida, jogada pelo sexto andar. Uma força descomunal a empurrava para frente, propulsionando-a como um míssil. Zéfiro e ela já eram um só...

Chegou ao aeroporto ainda correndo... ainda respirando. Em um só pedaço colhido de si mesma. Mas sabia que uma parte dela poderia partir a qualquer momento... E ela se partiria em pedaços.

Não pensava, apenas corria. Sequer se deu conta do rebuliço que causara atrás de si. Algumas pessoas a seguiram... Mas ela e Zéfiro já eram um só, e ninguém conseguia alcançá-la... seria como alcançar o inalcançável.

Chegou até a janela que dava para a pista... e foi com desespero que pôde ver o avião partindo. Parte de si mesma partiu-se em milhares de pedaços. Não sabia se os recolheria...

Apoiou-se sobre o vidro e sentiu toda a estafa que a corrida conferia a seu corpo. Ouviu seus perseguidores se aproximando, e foi num gesto de entrega que deixou que a levassem para fora do aeroporto.

Pouco depois, já em um pedaço amargo de si mesma, sentou-se em um ponto onde podia ver as nuvens clareando diante de seus olhos. A chuva fora levada para longe pelo vento que sua corrida produzira. Ela e Zéfiro eram um só...

- Você chegou atrasada.

Dentro dela pedaços se juntavam. Ali estavam os olhos, lábios, cabelos e braços que ela tanto buscara... E tanto queria. Deixou-se jogar e jorrar para dentro dele por meio dos sentidos, sem dar-se conta do tempo.

- Por que você não me disse nada?

- Porque eu sabia que você viria...

- Você não queria ir embora?

Ele tirou os bilhetes de dentro do bolso do sobretudo.

- Você chegou atrasada. – repetiu, e sorriu o sorriso dos lábios que ela tanto queria.

Ela o pegou pela mão e correu até o portão de embarque.

E partiram nas asas de Zéfiro, em um só pedaço.



segunda-feira, 25 de março de 2013

It's Alright - Melissa Otto


Fechou os olhos como se o mundo não pudesse tocá-la. Deu a si mesma aquela pausa, tão necessária, para prestar atenção aos sons e cheiros que ainda não conhecia.

Deitou-se na relva como se a terra que seu corpo tocava fizesse parte dela, até o momento no qual pôde entender que, realmente, não havia diferença... Tudo, naquele momento, fazia parte de uma coisa só.

Há muito sentia uma falta dentro de si mesma que não sabia dizer o que era. Os dias passavam curtos, como se o tempo quisesse engolir suas intenções e seus sonhos por completo... Os esforços já não condiziam com os resultados. Dar os próprios passos em um mundo cheio de cobranças tornou-se algo doloroso. E não tinha sido para isso mesmo que aquele mundo a criara? Para que pudesse seguir com os próprios pés? Mas não, já não era possível. Apressar-se ou atrasar-se havia se transformado em um suplício.

Apenas uma lembrança a confortava. Uma imagem distante e tão próxima de si mesma, que era quase possível tocá-la no infinito. Tão íntima e tão remota como as estrelas vistas todas as noites no céu. Alguém com quem pudesse dividir seus verdadeiros sonhos, anseios e paixões. Uma parte dela que, por estar sempre lá, não dava importância; mas que conservava sua beleza tão única, tão singela, tão... sua.

Aconchegou-se ainda mais na relva, sentindo o tato sobre a pele. Não fazia mais diferença onde estava, em que tempo estava ou onde estaria dali alguns minutos. Tudo que importava era o presente. Sentir-se no presente. Sem expectativas, sem medos, sem ilusões. Sem se dar conta, o som da brisa nas árvores a levou a um estado de transe que nunca antes havia experimentado. Nada que o ser humano era capaz de inventar poderia proporcionar aquilo... Apenas aquele lugar, naquele estado de consciência.

Um riso de criança soou ao seu redor, e ela despertou com um susto. Olhou em volta e viu uma pequena menina, de seus 5 anos, fazendo tranças em seus cabelos. Por alguns segundos, não ousou respirar. Em seguida, ficou preocupada e resolveu se aproximar da menina.

- Olá, querida... Você está perdida?

- Não estou não, sei bem onde estou... E você, está perdida?

Ficou alguns segundos analisando aquela figura que lhe parecia tão familiar, sem ousar retrucar a uma frase tão segura de si. Reparou que tinha flores nos cabelos e uma caixinha de música em seu colo.

Observou com que dificuldade a pequena menina tentava fazer tranças nos próprios cabelos, e resolveu ajudá-la... E essa abriu um sorriso de orelha à orelha.

- Só você mesmo poderia saber exatamente como fazer! – disse a menina, contente.

Olhou em volta e não havia mais ninguém. Pensou em saber onde estariam os pais da menina, mas foi interrompida como se tivesse os pensamentos lidos.

- Não estou perdida, nem sozinha. Este é meu lugar. Mas você me chamou aqui...

- Eu chamei você aqui?

- Sim. Quando desejou se lembrar de quem você era.

Sem avisar, a menina puxou-a pela mão e levou-a até cada uma das lembranças de sua infância... o cheiro das maçãs recém-colhidas do pomar, o balanço de ferro rangendo após a chuva forte, tanques de areia, bonecas de pano, o som do granizo batendo na janela de vidro e os gritos pelo medo do trovão, banhos de piscina e lama, viagens espaciais em foguetes feitos da rede na varanda, cada espetáculo e cada ralado no joelho, entre pular muros e descer ruas de paralelepípedos de bicicleta sem as mãos...

Uma lágrima rolou doída de cada um dos seus olhos.

- Não chore. – disse a menina. – Você não está perdida. É só não se esquecer... E você sempre poderá estar aqui.

E, dando um grande sorriso, deixou que as lágrimas se transformassem em pontes do arco-íris... em cujo fim estava o tesouro de saber quem se é.

Em um passe de mágica, ela acordou de seu transe com a certeza de nunca mais esquecer, ou sempre se lembrar...

A partir dali, caminhou... Mais adulta por ser a criança que sempre seria.

domingo, 24 de março de 2013

Cantiga de amigo - Cantoria (Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai)


Sua respiração estava ofegante...

O sol do meio-dia castigava impiedosamente a pele já ressecada, como punhais que perfuram a carne sem se dar conta. O ar seco piorava a sensação dolorosa, e o hálito quente clamava por uma gota de chuva sequer. Mas não era época de chuva... E o solo rachava como escamas de serpente... Envenenando vagarosamente suas esperanças de sobreviver.

Ele havia lhe trazido tão longe quanto pôde. Havia sido seu único companheiro durante toda a viagem, depois de terem sido expulsos de suas terras pelos jagunços sanguinários dos grandes coronéis. Não sabia ao certo quantos quilômetros tinham caminhado, em busca de alguma sombra e qualquer gole de água. Naquela época, o solo do sertão era mais inóspito do que o do deserto... pois nunca guardava lembranças da fartura. O do sertão, pelo contrário, carregava memórias vivas daquela gente sofrida, cheia de calos nos pés, um punhado de sonhos e muitas esperanças.

Teve que deixar seu amigo à própria sorte, pois esse já não tinha forças para continuar. Ele seguiu então sozinho, cambaleante, à procura de alguma alma solidária que lhe desse comida e água. Haviam perdido tudo que tinham... Os jagunços incendiaram sua casa e toda sua pequena plantação, já sôfrega. A colheita... feita com suas próprias mãos e da forma natural como seu pai o havia ensinado, fora totalmente confiscada. Nenhum grão de nada... nenhum teto sob o qual dormir... nenhuma lembrança sob a qual se abrigar. Todos os seus sonhos haviam sido usurpados, arrancados de dentro de si como se não tivesse o direito de sonhar.

Lembrava-se que foi seu amigo que o avisou da chegada do perigo. Os jagunços se aproximaram sorrateiramente, silenciosos como urubus sobre carniça. Se não fosse o alarme de seu querido amigo, eles o teriam atacado como a ave de rapina ataca o calango desavisado em seu banho de sol. Saiu à varanda armado na tentativa de poder reagir... naquelas terras era preciso. Matar ou morrer. E, se não fosse o seu amigo, ele jamais teria tido a oportunidade de livrar-se do toque da morte.

Saíram em disparada por caminhos desconhecidos. Seu amigo quase foi mortalmente ferido, mas seguiu corajosamente. Correram o quanto puderam, e a noite caiu. Não pararam sequer para beber água, e o frio do sertão era pior que o frio do deserto... pois desafiava as esperanças.

Sentiram suas forças abandonando a vida ao se darem conta da lua minguante no céu. O caminho era mais escuro que de costume... E o cansaço, a fome, a sede e a tristeza escureciam ainda mais a visão. Já não era mais possível saber para onde iam, ou qual caminho deveriam seguir. O conhecimento que tinham da região de repente tornou-se uma memória remota e vaga, e aos poucos ambos começaram a sucumbir ao destino... Seu amigo deixou-se cair sobre o chão de serpente, e ele entendeu que era hora de descansar.

Acordaram com o sol a romper o frio da noite, estendendo seus primeiros raios por sobre os corpos dos dois. Ele se levantou com dificuldade, motivado pela necessidade de continuar encarnado naquela terra. O vento soprava forte do leste, o que impunha ainda mais desgaste aos seus movimentos. Olhou para o lado e viu seu amigo ainda deitado, respirando de forma curta e irregular, no que percebeu que não seria possível para ele continuar caminhando.

Aproximou-se de seu amigo, deu-lhe um abraço de coragem e disse:

- Fique vivo, meu amigo... Voltarei para lhe buscar.

E continuou a caminhada, sem saber ao certo se não sucumbiria à força do vento, ao calor e ao cansaço. Só que agora não podia desistir... por si mesmo, e por seu amigo.

Alguns quilômetros à frente pôde ver uma pequena construção de barro, perto da qual brincavam algumas crianças. Andou, em esforço máximo, até conseguir chegar perto. Elas pararam sua brincadeira e o olharam assustadas. Não foi possível falar... Deixou-se cair pesadamente sobre a terra de serpente, tal qual seu amigo.

Quando deu por si, havia sido socorrido pela família que ali morava. Deram a ele parte da pouca água e do pouco estoque de comida que tinham. Ele, então, explicou-lhes o que aconteceu... e insistiu que precisava voltar para buscar seu amigo.

O homem e a mulher entreolharam-se.

- Ninguém sobrevive sem água nem comida debaixo desse sol. – disse a mulher. - À essa altura, ele já deve estar...

- Não! – interrompeu aquela fala insolente. – Meu amigo está vivo, e eu vou buscá-lo!

- Espere, homem... – disse seu outro salvador. – Você não vai aguentar sozinho... Se insiste tanto em buscar esse seu amigo, vou com você.

E ele saiu, revigorado, de volta ao local onde seu amigo descansava.

Ao chegar, desceu da carroça e aproximou-se de seu amigo com urgência. O corpo, agora inerte, não parecia mais conter vida.

Ele se ajoelhou pesadamente sobre o solo do sertão, mais impiedoso que o do deserto... pois levara a alma de seu querido amigo...

Debruçou-se sobre o dorso do animal, um belo cavalo marrom escuro, e tirou de si o último gole de esperança que tinha para chorar aquela morte. E até o vento, o sol e o solo escamado como serpente curvaram-se ante a dor no coração daquele sertanejo...

sexta-feira, 22 de março de 2013

Jardim da Fantasia (Bem Te Vi) - Paulinho Pedra Azul


Corria pelos campos de algodão com um enorme sorriso no rosto. Não conseguia caber em si de tanta felicidade. Suas pernas corriam como se por conta própria, numa vontade imensa de chegar ao topo do mundo, de voar feito bem-te-vi pelo ar, de migrar para alguma terra dos sonhos que deveria existir mais à frente na colina. Uma sensação de liberdade inexplicável, inexorável, capaz de dar asas a todos os seus desejos.

Era menino na época. Devia ter por volta de seus 12 anos. Como de costume, colocara a flor do algodão na janela de sua casa, na esperança de que ela a abrisse, ao invés de só espiar vagamente através da vidraça e esticar o braço por uma fresta para recolher o presente. Nunca dissera uma palavra, nunca dirigira a ele sequer um olhar. Mesmo assim, todos os dias, ao vir pelo caminho de volta da escola, ele recolhia uma flor de algodão com cuidado e deixava no parapeito daquela janela. A janela que ele esperava um dia ver aberta...

Assim se sucedeu por alguns meses... E ele nunca pensou em desistir. Todos os dias, saía da escola, passava pelos campos de algodão e apanhava, com cuidado, a flor mais bonita. Em seguida, corria o mais rápido que podia até a janela fechada e, delicadamente, colocava ali a flor como se ela fosse de cristal. Uma após a outra... Um dia depois do outro.

Certo dia achou que começava a perder as forças. Já não sabia ao certo se seus esforços eram em vão ou se havia algo maior, tão maravilhosamente maior esperando por ele, que nada mais poderia suplantar. E assim pensando, resolveu trepar na grande árvore da colina próxima à casa dela. Subiu no galho mais alto que conseguiu, observando atentamente as imagens que podia apreender do lado de dentro da janela.

Esperou o máximo que pôde. “Este será o último dia”, pensou ele. E o tempo passou... O sol começou a se pôr no horizonte. Frustrado, começou a descer da árvore como quem recebe a notícia de sua condenação. Antes de colocar os pés no chão resolveu dar uma última olhada para a janela.

Finalmente! Lá estava ela... aberta! Não só aberta, escancarada! O vento soprava forte, e ele pôde ver a imagem dela com cabelos revoltos, tão belos e lépidos como asas de borboletas. Ela não podia vê-lo, então procurou com o olhar e a cabeça por todos os lugares. Mirou o pôr-do-sol com uma expressão triste, pegou um tecido de algodão em suas mãos e, com desgosto, jogou-o longe no chão, e voltou a fechar a janela.

Ele desceu do galho mais baixo da árvore e aproximou-se da casa. Recolheu o tecido do chão... e reparou que era, na verdade, uma grande colcha com apenas um bordado sobre ela: uma flor de algodão.

Sem pensar duas vezes, correu até a janela e bateu com o dorso das mãos sobre a vidraça. Ela estava sentada numa cadeira, de costas para ele, e parecia chorar. Virou-se de sobressalto... e correu para abrir a janela.

- Acho... Acho que isso é seu.

- Não... - disse ela – É seu.

Sorriu. O sol já tinha se posto no horizonte, mas ver seu sorriso foi para ele como ver a estrela da aurora. O mais luminoso e belo dos astros vistos no céu... e na terra, a partir daquele momento. E foi num gesto suave, sob o céu estrelado, que deram seu primeiro beijo.

Sentado no sofá da sala, ele se cobria com a mesma colcha de algodão há quase 50 anos. E não havia nada mais aconchegante do que aquele fino tecido, que lhe cobria não o corpo, mas a alma...

- Venha deitar, querido... Ainda enrolado nessa colcha velha?

- Não é uma colcha velha... É uma lembrança.

- Lembranças não aquecem o coração...

E surgiu, mais uma vez, a estrela da aurora.

- Vamos, venha se deitar comigo... Já é tarde.

- Ainda é cedo...

E beijaram-se, como que pela primeira vez, há quase 50 anos...

quinta-feira, 21 de março de 2013

Against All Odds - Phil Collins


Estava ainda deitada na cama, observando o vento brincar com as folhas das árvores. Não era possível, naquele momento, ouvir os pássaros cantarem a plenos pulmões... A madrugada ainda não impunha o seu despertar. Logo o silêncio seria apenas uma lembrança... Uma lembrança dolorida.

Não desgostava do silêncio. Pelo contrário, ficar deitada, quieta, esperando pelo canto dos pássaros, era um de seus momentos preferidos. Aquele silêncio voluntário, escolhido, cheio de motivos e vazio de razões. Mas esse não... Era o silêncio imposto pela falta de alguém. Por esse motivo, era seu primeiro silêncio por estar inquieta, incompleta, ansiosa.

Tinham se conhecido em um esbarrão desses da vida. Não naqueles de cair papéis sobre o chão, olhando-se nos olhos superficialmente pela falta de graça, trocando desculpas artificiais. Não um esbarrão como esse. Um esbarrão daqueles que não só papéis caem sobre o chão, mas sonhos, planos, expectativas, intenções... E fica tudo ali, exposto, quase que involuntariamente.

O encontro deles havia sido assim. Lembrava-se de ter se sentindo inundada, pela primeira vez, com uma sensação que não sabia de onde vinha. Daquelas que parecem vir da nuca, outras horas da boca do estômago, e outras ainda fazendo levitar os pés. Involuntariamente... Como pura mágica. Aquele tipo de evento tão impressionante que você não ousa questionar.

Após o primeiro encontro, ficaram algum tempo procurando um pelo outro. Ela procurava, mas era ele quem a encontrava... nos mais profundos sentidos, aos quais nem mesmo ela parecia ter acesso. Foi apenas um encontro, um momento e poucas palavras, mas já era possível vislumbrar o que se passava por dentro...

Lembrava-se de ter virado o rosto na outra direção, para não sucumbir ao olhar e fazer papel de boba. Ou, ainda, para não se precipitar demais no que deveria ser apenas mais um encontro. A única coisa que se lembrava depois disso foi sentir a mão dele sobre seu ombro, e de sentir-se inundada em nuca, estômago, pés... e coração. Pela primeira vez...

Foram alguns meses. Alguns meses em que ela aceitou ignorar seu gosto pela solidão. Alguns meses se dando conta da progressão geométrica daquela sensação. Olhares, frases... mas o que ela apreciava mais daquilo tudo era finalmente poder dividir o seu silêncio com alguém. O silêncio de pausas musicais... tão vazias e ao mesmo tempo tão plenas...

Em uma das conversas, lembrava-se de ter confessado:

- Não sabemos quase nada de nós dois...

- Tudo que precisamos saber... – disse ele – Nós já sabemos.

E ela entendia. Tudo que era preciso saber gritava tão forte naqueles silêncios, que era quase ensurdecedor...

E agora o silêncio a incomodava... Não havia mais nada de eloquente nele. Nenhuma respiração para ouvir, um coração a bater, algo que significasse outra vida aliada à sua. As pausas eram infinitas, ficar deitada e quieta era como esperar pelo fim... O fim daquele silêncio.

Finalmente, a cotovia em seu cantar suave e insistente fez com que despertasse de seu devaneio entre os mundos. Virou apenas os olhos, mirando os primeiros raios de sol que vinham lhe incomodar a visão. Apertou os olhos violentamente, enquanto a luz entrava sem pedir licença em seus sentidos.

Vestiu-se, colocou sua bolsa sobre o ombro, trancou janelas e portas como de costume. Desceu pelo elevador com o coração apertado. “Será que ele vem?” A espera nunca lhe pareceu tão longa... mas abreviou sua ansiedade ao constatar que bem à porta do edifício, recostado no portão, lá estava ele. Olhando para a mesma cotovia que cantava insistentemente.

Ela se aproximou vagarosamente, e deixou que seu perfume despertasse os sentidos daquele que a esperava. Ele se virou com o seu sorriso costumeiro. Deram os passos decisivos em direção um do outro...

...E trocaram o abraço de sempre. Com direito a sensações perpassando por nuca, estômago e coração... Numa vontade eterna de não soltar mais... No alçar voo pelo levitar dos pés...

Involuntariamente.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Black Sun - Dead Can Dance


- O que eu faria se o mundo acabasse hoje?

Sorriu sarcasticamente, duvidando das intenções da pergunta feita pelo seu inquisidor do outro lado da parede de espelhos. Seus olhos estavam vendados e as mãos cuidadosamente posicionadas sobre os joelhos. Sabia que um movimento em falso poderia levantar suspeitas a respeito de sua real intenção.

Pouco ou quase nada em si diferia de seu algoz. Podia ouvir respirações como se fossem a sua. Tão perto de seus ouvidos, como o hálito quente do demônio da culpa que rondava naquelas noites frias de inverno.  Não tentava fugir; apenas sorria sarcasticamente. Não havia cronômetro para marcar o tempo de suas reações. Sabia que esperariam por toda a eternidade por aquela resposta.

Pensou em mentir. Pensou que inventar uma história irreal e que satisfizesse o apetite daquela fúria seria mais convincente, mais lógico. Talvez fosse seu passaporte para um dia mais claro, para uma visão sem disfarces. Ainda que não reagisse com o corpo, sabia que seus sorrisos silenciosos suscitavam sentimentos diversos em quem o inquiria.

Aquela questão já tinha sido feita várias vezes... e nunca pensara em responder. Afinal, eram um só. Não havia como não saber, bastava um olhar... Mas seus olhos estavam vendados, não era possível olhar para dentro deles como se fossem uma parede de espelhos.

O metrônomo do universo impôs seus ruídos paulatinamente, marcando o compasso do pensamento, até que tivesse que responder... De uma vez por todas.

- O que eu faria se o mundo acabasse hoje? – repetiu, sem sorrir. – Quantas vezes você já não me fez essa pergunta?... Hoje...

Titubeou por mais alguns segundos, contados no metrônomo.

- Hoje eu responderei.

Não pôde saber as reações. Sua visão estava obscurecida pelo orgulho. Mas era tarde demais para esperar.

- Hoje... Se o mundo acabasse...

E com uma das mãos, antes posicionada sobre os joelhos, começou a retirar a venda, vagarosamente.

- Se o mundo acabasse hoje...

- Eu enfileiraria em pensamento todas as pessoas que já passaram pela minha vida, e diria a cada uma delas o que queria dizer.

-Diria que amo a quem realmente amo. Pediria perdão por não ter conseguido amar. Ouviria súplicas, desculpas.

- Diria que não tenho mágoas, nem más intenções. Que não conto as lágrimas, apenas deixo que sequem ao vento... Que conto o tempo pelas batidas do meu coração...

- Pegaria cada uma pela mão e levaria à porta da minha consciência. Mostraria que não há fechadura, nem segredo. Mas que é preciso bater para entrar...

- Deixaria que cada um visse o que é preciso enxergar... E que há algo para além do fim...

A venda caiu-lhe sobre os joelhos, libertando totalmente a visão. Do outro lado do reflexo, alguém olhava com olhos molhados. Havia escrito o que dizia sobre a parede de espelhos em letras de forma. Não podia mais esperar...

- Não é o fim...

- O que eu faria hoje...

- Se o mundo não acabasse?...