Diga que ama a quem ama.
Diga, mesmo que pareça banal.
Diga, mesmo que você não esteja assim tão inclinado a falar todos os dias... diga, assim mesmo.
Diga sem economizar pontos de exclamação, sem tentar se proteger de sentir. Afinal, o que de tão ruim pode acontecer a você por se entregar?
Diga! Mas diga de verdade, não para receber algo em troca.
Diga! Mas diga com convicção, para não ser desmentido depois.
Diga olhando nos olhos, com palavras e gestos vindos de todos os cantos de quem você é.
Diga de forma arrebatadora, de forma discreta, de um jeito inocente, com os lábios trêmulos, com a voz embargada, com lágrimas nos olhos... Diga! Da maneira como quiser... mesmo que lhe custe o ego.
Diga... mesmo que nada ouça, mesmo que nada veja ou toque em troca. O amor vai além da posse, do entendimento... vai além, muito além de envaidecer-se. Perpassa pelo corar-se, pelo preencher-se, pelo soltar-se, pelo não caber em si... Viajar sem querer, perder-se e encontrar... a si e ao outro. Pois quem ama e demonstra, mesmo que não correspondido, encontra dentro de si a força de revelar-se, de amar a si mesmo.
Diga na frente do espelho, ao pé do ouvido, no canto da boca, debaixo dos lençóis...
Diga com a força de mil sóis, com a paz necessária para aquietar o coração quando a única resposta é: Não.
Nem sempre amar e ser amado é possível... Caso em que amar-se é sempre a melhor solução.
Amar-se sempre, para sempre... Para conseguir amar ao outro.
Amar o outro sempre, para sempre... Para conseguir amar a si mesmo.
Eis o ciclo infinito chamado amor... que não desgasta, não envelhece, não retrocede, não se vicia, não aprisiona, não amarga e nem desaparece... enquanto for amor.
Ame...
E diga que ama a quem ama...
de verdade...
Utilizando...
Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;
Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.
Raquel Capucci
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;
Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.
Raquel Capucci
sexta-feira, 31 de maio de 2013
sábado, 30 de março de 2013
Through Glass - Stone Sour
Corria para poder
alcançar o que parecia inalcançável. Nem mesmo o vento contrário podia
impedi-la em sua intenção de chegar antes do tempo, sobrevoar a cidade com os pés
de Zéfiro...
Sabia que havia outros
meios melhores de conseguir chegar, que a levariam além das próprias intenções,
mas não conseguia mais pensar... somente sentir o aperto que a deixava quase
sem ar. Tinha que correr para poder respirar, correr para continuar vivendo.
Não podia e nem queria conter aquele sentimento arrebatador que a tomava por
completo.
Não sabia o que
aconteceria depois. Talvez aquela não fosse a melhor maneira, ou talvez tivesse
sido melhor deixar as coisas como estavam. Algumas palavras rudes, algumas
fotos jogadas ao vento do sexto andar... E já não teria mais aquela paz que
antes tivera, de poder ver roupas e vinis jogados pelo chão. A paz de estar
sozinha, aquela paz que ela tanto quisera durante os últimos meses, agora
parecia uma faca apunhalando-a pelas costas. Não era o que queria... Será que
era melhor deixar as coisas como estavam?...
Pensava... e corria. Não
era possível parar de correr. As pernas já seguiam sozinhas em direção ao
aeroporto. Esquecera as chaves do carro e do apartamento vazio. A mobília fria,
sem o calor dos corpos quentes de desejo em noites de outono, falava verdades
que ela não queria ouvir. Não tinha sido culpa de ninguém, cada um fizera o que
podia. Cada um agira de acordo com seus medos escondidos, esquecendo-se que em
algum ponto do meio estava o amor que cultivavam há pouco mais de dois anos. Cada
qual com suas feridas abertas, sangrando sobre letras de músicas que não eram
sua trilha sonora. Pararam de enxergar um ao outro para ver apenas a si mesmos
e sua culpa... Mas não tinha sido culpa de ninguém.
O vento soprava ainda
mais forte. No horizonte uma tempestade prateada se formava. A vontade de
Zéfiro a levava para frente... e ela sabia que chegaria, nem que fosse em
pedaços. Pequenos pedaços não recolhidos de si mesma. Não havia outro lugar que
queria estar a não ser naqueles braços que conhecia tão bem e ainda queria. Braços
que reconheceria pelo calor, pelo toque e pela intenção dentre milhões de outros.
Os que ela queria...
O vento soprava tão forte
quanto naquela tarde em que levara embora as imagens impressas de memórias que
ela conhecia tão bem... Mas que não queria mais.
Tinha que correr para
continuar respirando... respirar para continuar vivendo. Ainda que seu corpo
estivesse preparado para o esforço, a emoção conferia uma dificuldade a mais que
quase lhe turvava a visão. Não sabia se chegaria... E, se não chegasse,
perderia para sempre o que tanto queria. Olhos, lábios, cabelos, braços... uma
vida ainda não ocorrida, jogada pelo sexto andar. Uma força descomunal a empurrava
para frente, propulsionando-a como um míssil. Zéfiro e ela já eram um só...
Chegou ao aeroporto
ainda correndo... ainda respirando. Em um só pedaço colhido de si mesma. Mas
sabia que uma parte dela poderia partir a qualquer momento... E ela se partiria
em pedaços.
Não pensava, apenas
corria. Sequer se deu conta do rebuliço que causara atrás de si. Algumas
pessoas a seguiram... Mas ela e Zéfiro já eram um só, e ninguém conseguia alcançá-la...
seria como alcançar o inalcançável.
Chegou até a janela que
dava para a pista... e foi com desespero que pôde ver o avião partindo. Parte
de si mesma partiu-se em milhares de pedaços. Não sabia se os recolheria...
Apoiou-se sobre o vidro
e sentiu toda a estafa que a corrida conferia a seu corpo. Ouviu seus
perseguidores se aproximando, e foi num gesto de entrega que deixou que a
levassem para fora do aeroporto.
Pouco depois, já em um
pedaço amargo de si mesma, sentou-se em um ponto onde podia ver as nuvens
clareando diante de seus olhos. A chuva fora levada para longe pelo vento que
sua corrida produzira. Ela e Zéfiro eram um só...
- Você chegou atrasada.
Dentro dela pedaços se
juntavam. Ali estavam os olhos, lábios, cabelos e braços que ela tanto
buscara... E tanto queria. Deixou-se jogar e jorrar para dentro dele por meio dos
sentidos, sem dar-se conta do tempo.
- Por que você não me
disse nada?
- Porque eu sabia que
você viria...
- Você não queria ir
embora?
Ele tirou os bilhetes de
dentro do bolso do sobretudo.
- Você chegou atrasada. –
repetiu, e sorriu o sorriso dos lábios que ela tanto queria.
Ela o pegou pela mão e
correu até o portão de embarque.
E partiram nas asas de
Zéfiro, em um só pedaço.
segunda-feira, 25 de março de 2013
It's Alright - Melissa Otto
Fechou os olhos como se
o mundo não pudesse tocá-la. Deu a si mesma aquela pausa, tão necessária, para
prestar atenção aos sons e cheiros que ainda não conhecia.
Deitou-se na relva como
se a terra que seu corpo tocava fizesse parte dela, até o momento no qual pôde
entender que, realmente, não havia diferença... Tudo, naquele momento, fazia
parte de uma coisa só.
Há muito sentia uma
falta dentro de si mesma que não sabia dizer o que era. Os dias passavam
curtos, como se o tempo quisesse engolir suas intenções e seus sonhos por
completo... Os esforços já não condiziam com os resultados. Dar os próprios
passos em um mundo cheio de cobranças tornou-se algo doloroso. E não tinha sido
para isso mesmo que aquele mundo a criara? Para que pudesse seguir com os
próprios pés? Mas não, já não era possível. Apressar-se ou atrasar-se havia se transformado
em um suplício.
Apenas uma lembrança a
confortava. Uma imagem distante e tão próxima de si mesma, que era quase
possível tocá-la no infinito. Tão íntima e tão remota como as estrelas vistas
todas as noites no céu. Alguém com quem pudesse dividir seus verdadeiros sonhos,
anseios e paixões. Uma parte dela que, por estar sempre lá, não dava
importância; mas que conservava sua beleza tão única, tão singela, tão... sua.
Aconchegou-se ainda mais
na relva, sentindo o tato sobre a pele. Não fazia mais diferença onde estava,
em que tempo estava ou onde estaria dali alguns minutos. Tudo que importava era
o presente. Sentir-se no presente. Sem expectativas, sem medos, sem ilusões.
Sem se dar conta, o som da brisa nas árvores a levou a um estado de transe que
nunca antes havia experimentado. Nada que o ser humano era capaz de inventar poderia
proporcionar aquilo... Apenas aquele lugar, naquele estado de consciência.
Um riso de criança soou
ao seu redor, e ela despertou com um susto. Olhou em volta e viu uma pequena
menina, de seus 5 anos, fazendo tranças em seus cabelos. Por alguns segundos,
não ousou respirar. Em seguida, ficou preocupada e resolveu se aproximar da
menina.
- Olá, querida... Você
está perdida?
- Não estou não, sei bem
onde estou... E você, está perdida?
Ficou alguns segundos
analisando aquela figura que lhe parecia tão familiar, sem ousar retrucar a uma
frase tão segura de si. Reparou que tinha flores nos cabelos e uma caixinha de
música em seu colo.
Observou com que
dificuldade a pequena menina tentava fazer tranças nos próprios cabelos, e
resolveu ajudá-la... E essa abriu um sorriso de orelha à orelha.
- Só você mesmo poderia
saber exatamente como fazer! – disse a menina, contente.
Olhou em volta e não
havia mais ninguém. Pensou em saber onde estariam os pais da menina, mas foi
interrompida como se tivesse os pensamentos lidos.
- Não estou perdida, nem
sozinha. Este é meu lugar. Mas você me chamou aqui...
- Eu chamei você aqui?
- Sim. Quando desejou se
lembrar de quem você era.
Sem avisar, a menina
puxou-a pela mão e levou-a até cada uma das lembranças de sua infância... o
cheiro das maçãs recém-colhidas do pomar, o balanço de ferro rangendo após a
chuva forte, tanques de areia, bonecas de pano, o som do granizo batendo na
janela de vidro e os gritos pelo medo do trovão, banhos de piscina e lama,
viagens espaciais em foguetes feitos da rede na varanda, cada espetáculo e cada
ralado no joelho, entre pular muros e descer ruas de paralelepípedos de
bicicleta sem as mãos...
Uma lágrima rolou doída
de cada um dos seus olhos.
- Não chore. – disse a
menina. – Você não está perdida. É só não se esquecer... E você sempre poderá
estar aqui.
E, dando um grande
sorriso, deixou que as lágrimas se transformassem em pontes do arco-íris... em
cujo fim estava o tesouro de saber quem se é.
Em um passe de mágica, ela
acordou de seu transe com a certeza de nunca mais esquecer, ou sempre se
lembrar...
A partir dali,
caminhou... Mais adulta por ser a criança que sempre seria.
domingo, 24 de março de 2013
Cantiga de amigo - Cantoria (Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai)
Sua respiração estava
ofegante...
O sol do meio-dia castigava
impiedosamente a pele já ressecada, como punhais que perfuram a carne sem se
dar conta. O ar seco piorava a sensação dolorosa, e o hálito quente clamava por
uma gota de chuva sequer. Mas não era época de chuva... E o solo rachava como
escamas de serpente... Envenenando vagarosamente suas esperanças de sobreviver.
Ele havia lhe trazido
tão longe quanto pôde. Havia sido seu único companheiro durante toda a viagem,
depois de terem sido expulsos de suas terras pelos jagunços sanguinários dos
grandes coronéis. Não sabia ao certo quantos quilômetros tinham caminhado, em busca de alguma sombra e qualquer gole de água. Naquela época, o solo do sertão
era mais inóspito do que o do deserto... pois nunca guardava lembranças da fartura.
O do sertão, pelo contrário, carregava memórias vivas daquela gente sofrida,
cheia de calos nos pés, um punhado de sonhos e muitas esperanças.
Teve que deixar seu
amigo à própria sorte, pois esse já não tinha forças para continuar. Ele seguiu
então sozinho, cambaleante, à procura de alguma alma solidária que lhe desse
comida e água. Haviam perdido tudo que tinham... Os jagunços incendiaram sua
casa e toda sua pequena plantação, já sôfrega. A colheita... feita com suas
próprias mãos e da forma natural como seu pai o havia ensinado, fora totalmente
confiscada. Nenhum grão de nada... nenhum teto sob o qual dormir... nenhuma
lembrança sob a qual se abrigar. Todos os seus sonhos haviam sido usurpados,
arrancados de dentro de si como se não tivesse o direito de sonhar.
Lembrava-se que foi seu
amigo que o avisou da chegada do perigo. Os jagunços se aproximaram
sorrateiramente, silenciosos como urubus sobre carniça. Se não fosse o alarme
de seu querido amigo, eles o teriam atacado como a ave de rapina ataca o
calango desavisado em seu banho de sol. Saiu à varanda armado na tentativa de
poder reagir... naquelas terras era preciso. Matar ou morrer. E, se não fosse o
seu amigo, ele jamais teria tido a oportunidade de livrar-se do toque da morte.
Saíram em disparada por
caminhos desconhecidos. Seu amigo quase foi mortalmente ferido, mas seguiu
corajosamente. Correram o quanto puderam, e a noite caiu. Não pararam sequer
para beber água, e o frio do sertão era pior que o frio do deserto... pois desafiava
as esperanças.
Sentiram suas forças
abandonando a vida ao se darem conta da lua minguante no céu. O caminho era
mais escuro que de costume... E o cansaço, a fome, a sede e a tristeza
escureciam ainda mais a visão. Já não era mais possível saber para onde iam, ou
qual caminho deveriam seguir. O conhecimento que tinham da região de repente
tornou-se uma memória remota e vaga, e aos poucos ambos começaram a sucumbir ao
destino... Seu amigo deixou-se cair sobre o chão de serpente, e ele entendeu
que era hora de descansar.
Acordaram com o sol a
romper o frio da noite, estendendo seus primeiros raios por sobre os corpos dos
dois. Ele se levantou com dificuldade, motivado pela necessidade de continuar
encarnado naquela terra. O vento soprava forte do leste, o que impunha ainda
mais desgaste aos seus movimentos. Olhou para o lado e viu seu amigo ainda
deitado, respirando de forma curta e irregular, no que percebeu que não seria
possível para ele continuar caminhando.
Aproximou-se de seu
amigo, deu-lhe um abraço de coragem e disse:
- Fique vivo, meu
amigo... Voltarei para lhe buscar.
E continuou a caminhada,
sem saber ao certo se não sucumbiria à força do vento, ao calor e ao cansaço.
Só que agora não podia desistir... por si mesmo, e por seu amigo.
Alguns quilômetros à
frente pôde ver uma pequena construção de barro, perto da qual brincavam
algumas crianças. Andou, em esforço máximo, até conseguir chegar perto. Elas
pararam sua brincadeira e o olharam assustadas. Não foi possível falar...
Deixou-se cair pesadamente sobre a terra de serpente, tal qual seu amigo.
Quando deu por si, havia
sido socorrido pela família que ali morava. Deram a ele parte da pouca água e
do pouco estoque de comida que tinham. Ele, então, explicou-lhes o que
aconteceu... e insistiu que precisava voltar para buscar seu amigo.
O homem e a mulher entreolharam-se.
- Ninguém sobrevive sem
água nem comida debaixo desse sol. – disse a mulher. - À essa altura, ele já deve
estar...
- Não! – interrompeu aquela
fala insolente. – Meu amigo está vivo, e eu vou buscá-lo!
- Espere, homem... –
disse seu outro salvador. – Você não vai aguentar sozinho... Se insiste
tanto em buscar esse seu amigo, vou com você.
E ele saiu, revigorado, de
volta ao local onde seu amigo descansava.
Ao chegar, desceu da
carroça e aproximou-se de seu amigo com urgência. O corpo, agora inerte, não parecia
mais conter vida.
Ele se ajoelhou pesadamente sobre o solo do sertão, mais impiedoso que o do deserto... pois levara a alma de seu querido amigo...
Debruçou-se sobre o
dorso do animal, um belo cavalo marrom escuro, e tirou de si o último gole de
esperança que tinha para chorar aquela morte. E até o vento, o
sol e o solo escamado como serpente curvaram-se ante a dor no coração daquele
sertanejo...
sexta-feira, 22 de março de 2013
Jardim da Fantasia (Bem Te Vi) - Paulinho Pedra Azul
Corria pelos campos de
algodão com um enorme sorriso no rosto. Não conseguia caber em si de tanta
felicidade. Suas pernas corriam como se por conta própria, numa vontade imensa
de chegar ao topo do mundo, de voar feito bem-te-vi pelo ar, de migrar para
alguma terra dos sonhos que deveria existir mais à frente na colina. Uma
sensação de liberdade inexplicável, inexorável, capaz de dar asas a todos os
seus desejos.
Era menino na época.
Devia ter por volta de seus 12 anos. Como de costume, colocara a flor do
algodão na janela de sua casa, na esperança de que ela a abrisse, ao invés de só
espiar vagamente através da vidraça e esticar o braço por uma fresta para
recolher o presente. Nunca dissera uma palavra, nunca dirigira a ele sequer um
olhar. Mesmo assim, todos os dias, ao vir pelo caminho de volta da escola, ele
recolhia uma flor de algodão com cuidado e deixava no parapeito daquela janela.
A janela que ele esperava um dia ver aberta...
Assim se sucedeu por
alguns meses... E ele nunca pensou em desistir. Todos os dias, saía da escola,
passava pelos campos de algodão e apanhava, com cuidado, a flor mais bonita. Em
seguida, corria o mais rápido que podia até a janela fechada e, delicadamente,
colocava ali a flor como se ela fosse de cristal. Uma após a outra... Um dia
depois do outro.
Certo dia achou que
começava a perder as forças. Já não sabia ao certo se seus esforços eram em vão
ou se havia algo maior, tão maravilhosamente maior esperando por ele, que nada
mais poderia suplantar. E assim pensando, resolveu trepar na grande árvore da
colina próxima à casa dela. Subiu no galho mais alto que conseguiu, observando
atentamente as imagens que podia apreender do lado de dentro da janela.
Esperou o máximo que
pôde. “Este será o último dia”, pensou ele. E o tempo passou... O sol começou a
se pôr no horizonte. Frustrado, começou a descer da árvore como quem recebe a
notícia de sua condenação. Antes de colocar os pés no chão resolveu dar uma
última olhada para a janela.
Finalmente! Lá estava
ela... aberta! Não só aberta, escancarada! O vento soprava forte, e ele pôde
ver a imagem dela com cabelos revoltos, tão belos e lépidos como asas de
borboletas. Ela não podia vê-lo, então procurou com o olhar e a cabeça por
todos os lugares. Mirou o pôr-do-sol com uma expressão triste, pegou um tecido
de algodão em suas mãos e, com desgosto, jogou-o longe no chão, e voltou a
fechar a janela.
Ele desceu do galho mais
baixo da árvore e aproximou-se da casa. Recolheu o tecido do chão... e reparou
que era, na verdade, uma grande colcha com apenas um bordado sobre ela: uma
flor de algodão.
Sem pensar duas vezes,
correu até a janela e bateu com o dorso das mãos sobre a vidraça. Ela estava
sentada numa cadeira, de costas para ele, e parecia chorar. Virou-se de
sobressalto... e correu para abrir a janela.
- Acho... Acho que isso
é seu.
- Não... - disse ela – É
seu.
Sorriu. O sol já tinha
se posto no horizonte, mas ver seu sorriso foi para ele como ver a estrela da
aurora. O mais luminoso e belo dos astros vistos no céu... e na terra, a partir
daquele momento. E foi num gesto suave, sob o céu estrelado, que deram seu
primeiro beijo.
Sentado no sofá da sala,
ele se cobria com a mesma colcha de algodão há quase 50 anos. E não havia nada
mais aconchegante do que aquele fino tecido, que lhe cobria não o corpo, mas a
alma...
- Venha deitar,
querido... Ainda enrolado nessa colcha velha?
- Não é uma colcha
velha... É uma lembrança.
- Lembranças não aquecem
o coração...
E surgiu, mais uma vez,
a estrela da aurora.
- Vamos, venha se deitar
comigo... Já é tarde.
- Ainda é cedo...
E beijaram-se, como que
pela primeira vez, há quase 50 anos...
quinta-feira, 21 de março de 2013
Against All Odds - Phil Collins
Estava ainda deitada na
cama, observando o vento brincar com as folhas das árvores. Não era possível,
naquele momento, ouvir os pássaros cantarem a plenos pulmões... A madrugada
ainda não impunha o seu despertar. Logo o silêncio seria apenas uma
lembrança... Uma lembrança dolorida.
Não desgostava do
silêncio. Pelo contrário, ficar deitada, quieta, esperando pelo canto dos
pássaros, era um de seus momentos preferidos. Aquele silêncio voluntário,
escolhido, cheio de motivos e vazio de razões. Mas esse não... Era o silêncio
imposto pela falta de alguém. Por esse motivo, era seu primeiro silêncio por
estar inquieta, incompleta, ansiosa.
Tinham se conhecido em
um esbarrão desses da vida. Não naqueles de cair papéis sobre o chão,
olhando-se nos olhos superficialmente pela falta de graça, trocando desculpas
artificiais. Não um esbarrão como esse. Um esbarrão daqueles que não só papéis
caem sobre o chão, mas sonhos, planos, expectativas, intenções... E fica tudo
ali, exposto, quase que involuntariamente.
O encontro deles havia
sido assim. Lembrava-se de ter se sentindo inundada, pela primeira vez, com uma
sensação que não sabia de onde vinha. Daquelas que parecem vir da nuca, outras
horas da boca do estômago, e outras ainda fazendo levitar os pés. Involuntariamente...
Como pura mágica. Aquele tipo de evento tão impressionante que você não ousa
questionar.
Após o primeiro
encontro, ficaram algum tempo procurando um pelo outro. Ela procurava, mas era
ele quem a encontrava... nos mais profundos sentidos, aos quais nem mesmo ela
parecia ter acesso. Foi apenas um encontro, um momento e poucas palavras, mas
já era possível vislumbrar o que se passava por dentro...
Lembrava-se de ter
virado o rosto na outra direção, para não sucumbir ao olhar e fazer papel de
boba. Ou, ainda, para não se precipitar demais no que deveria ser apenas mais
um encontro. A única coisa que se lembrava depois disso foi sentir a mão dele
sobre seu ombro, e de sentir-se inundada em nuca, estômago, pés... e coração. Pela
primeira vez...
Foram alguns meses.
Alguns meses em que ela aceitou ignorar seu gosto pela solidão. Alguns meses se
dando conta da progressão geométrica daquela sensação. Olhares, frases... mas o
que ela apreciava mais daquilo tudo era finalmente poder dividir o seu silêncio
com alguém. O silêncio de pausas musicais... tão vazias e ao mesmo tempo tão
plenas...
Em uma das conversas,
lembrava-se de ter confessado:
- Não sabemos quase nada
de nós dois...
- Tudo que precisamos
saber... – disse ele – Nós já sabemos.
E ela entendia. Tudo que
era preciso saber gritava tão forte naqueles silêncios, que era quase ensurdecedor...
E agora o silêncio a
incomodava... Não havia mais nada de eloquente nele. Nenhuma respiração para
ouvir, um coração a bater, algo que significasse outra vida aliada à sua. As
pausas eram infinitas, ficar deitada e quieta era como esperar pelo fim... O
fim daquele silêncio.
Finalmente, a cotovia em
seu cantar suave e insistente fez com que despertasse de seu devaneio entre os
mundos. Virou apenas os olhos, mirando os primeiros raios de sol que vinham lhe
incomodar a visão. Apertou os olhos violentamente, enquanto a luz entrava sem
pedir licença em seus sentidos.
Vestiu-se, colocou sua
bolsa sobre o ombro, trancou janelas e portas como de costume. Desceu pelo
elevador com o coração apertado. “Será que ele vem?” A espera nunca lhe pareceu
tão longa... mas abreviou sua ansiedade ao constatar que bem à porta do
edifício, recostado no portão, lá estava ele. Olhando para a mesma cotovia que
cantava insistentemente.
Ela se aproximou
vagarosamente, e deixou que seu perfume despertasse os sentidos daquele que a
esperava. Ele se virou com o seu sorriso costumeiro. Deram os passos decisivos
em direção um do outro...
...E trocaram o abraço
de sempre. Com direito a sensações perpassando por nuca, estômago e coração... Numa
vontade eterna de não soltar mais... No alçar voo pelo levitar dos pés...
Involuntariamente.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Black Sun - Dead Can Dance
- O que eu faria se o
mundo acabasse hoje?
Sorriu sarcasticamente, duvidando
das intenções da pergunta feita pelo seu inquisidor do outro lado da parede de
espelhos. Seus olhos estavam vendados e as mãos cuidadosamente posicionadas
sobre os joelhos. Sabia que um movimento em falso poderia levantar
suspeitas a respeito de sua real intenção.
Pouco ou quase nada em si diferia de seu algoz. Podia ouvir respirações como se fossem a sua. Tão perto
de seus ouvidos, como o hálito quente do demônio da culpa que rondava
naquelas noites frias de inverno. Não
tentava fugir; apenas sorria sarcasticamente. Não havia cronômetro para marcar
o tempo de suas reações. Sabia que esperariam por toda a eternidade por aquela
resposta.
Pensou em mentir. Pensou
que inventar uma história irreal e que satisfizesse o apetite daquela fúria
seria mais convincente, mais lógico. Talvez fosse seu passaporte para um dia
mais claro, para uma visão sem disfarces. Ainda que não reagisse com o corpo,
sabia que seus sorrisos silenciosos suscitavam sentimentos diversos em quem o
inquiria.
Aquela questão já tinha
sido feita várias vezes... e nunca pensara em responder. Afinal, eram um só.
Não havia como não saber, bastava um olhar... Mas seus olhos estavam vendados,
não era possível olhar para dentro deles como se fossem uma parede de espelhos.
O metrônomo do universo impôs
seus ruídos paulatinamente, marcando o compasso do pensamento, até que tivesse
que responder... De uma vez por todas.
- O que eu faria se o
mundo acabasse hoje? – repetiu, sem sorrir. – Quantas vezes você já não me fez
essa pergunta?... Hoje...
Titubeou por mais alguns
segundos, contados no metrônomo.
- Hoje eu responderei.
Não pôde saber as
reações. Sua visão estava obscurecida pelo orgulho. Mas era tarde demais para
esperar.
- Hoje... Se o mundo
acabasse...
E com uma das mãos,
antes posicionada sobre os joelhos, começou a retirar a venda, vagarosamente.
- Se o mundo acabasse
hoje...
- Eu enfileiraria em
pensamento todas as pessoas que já passaram pela minha vida, e diria a cada uma
delas o que queria dizer.
-Diria que amo a quem
realmente amo. Pediria perdão por não ter conseguido amar. Ouviria súplicas,
desculpas.
- Diria que não tenho
mágoas, nem más intenções. Que não conto as lágrimas, apenas deixo que sequem
ao vento... Que conto o tempo pelas batidas do meu coração...
- Pegaria cada uma pela
mão e levaria à porta da minha consciência. Mostraria que não há fechadura, nem
segredo. Mas que é preciso bater para entrar...
- Deixaria que cada um visse
o que é preciso enxergar... E que há algo para além do fim...
A venda caiu-lhe sobre
os joelhos, libertando totalmente a visão. Do outro lado do reflexo, alguém olhava
com olhos molhados. Havia escrito o que dizia sobre a parede de espelhos em
letras de forma. Não podia mais esperar...
- Não é o fim...
- O que eu faria hoje...
- Se o mundo não
acabasse?...
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