Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


sábado, 31 de março de 2012

Caçar para si mesma: o grito de liberdade da Leoa solteira

Após a queima de sutiãs em praça pública, a conquista da liberdade sexual, o usufruto da contracepção e a atuação em cargos importantes da política mundial, a mulher moderna enfrenta o seu mais recente desafio: assumir sua condição de mulher solteira.

Assumir publicamente não é problema para a maioria das mulheres que escolheram ficar solteiras. O desafio é, na verdade, fazer a sociedade acreditar (entenda-se família, amigos e amigas, antigos parceiros ou pretensos parceiros) de que elas estão solteiras e adorando, obrigada. Ainda é difícil para uma sociedade com resquícios (resquícios?) patriarcais aceitar que existem mulheres que são capazes de assumir suas convicções, seus trabalhos, seus filhos e sua vida sexual sem estar dentro de uma relação com outra pessoa, seja do sexo oposto ou não.

Imaginar um homem solteiro, curtindo a vida, cuidando do trabalho, indo atrás de uma mulher a cada fim de semana (quiçá a cada noite) não é difícil. Mas algumas pessoas, ao ouvir “estou solteira, feliz e não pretendo me relacionar com mais ninguém por enquanto”, escutam “estou solteira (suspiro) porque fui rejeitada e ninguém mais me quis, então estou tentando conviver com isso”. Se você ouvir a frase real de uma mulher que olhar para o chão ou talvez para casais de mãos dadas passando ao redor, tenha certeza que você está certo (a) em seu entendimento. Mas se, do contrário, essa mulher olhar profundamente em seus olhos e não titubear, saiba que você está diante de uma Leoa solteira.

A Leoa solteira é aquela que provavelmente já viveu grandes amores, amou muito e foi muito feliz em alguns relacionamentos. Mas, por algum motivo, ela se viu solteira e decidiu conscientemente que aquilo era o melhor para sua vida naquele momento. Talvez ela já tenha ficado triste por isso, já tenha aceitado qualquer homem ou mulher que lhe tenha aparecido na frente, mas o fato é que, em algum momento, percebeu que ela é a melhor companhia para si mesma. E que estar consigo mesma e plena dessa convicção não é um sacrifício, não é uma sensação de vazio, mas de conquista de espaço, de espaço interno e externo, de valorização de quem ela é perante tudo e todos.

A Leoa solteira não está sozinha, nem tão pouco é solitária. Pelo contrário. Talvez os homens e mulheres a procurem muito, até mais do que o normal. Talvez lhe façam propostas de relacionamentos depois de noites de prazer, ou até se apaixonem somente pelo que ela é sem mesmo tocá-la. O que provoca isso não é sua condição de solteira, mas a energia de plenitude e conforto que ela emana por estar bem dentro de sua própria pele.

Por que Leoa solteira? Porque ela aprendeu que pode caçar para si mesma, sem precisar levar parte de sua caça para um Leão/Leoa que esteja por perto. Não que ela não queira dividir o fruto de seus esforços, pelo contrário. Mas ela não quer uma relação servil, de ser obrigada a levar uma parcela do que conseguir para o outro. É bem provável que as mulheres felizes em seu casamento já tenham sido Leoas solteiras que encontraram alguém que esperasse elas mesmas tomarem a iniciativa de dividir a sua caça, e que aceitasse a progressão das parcelas que elas tinham capacidade de dividir em determinado momento. Não lhe cobrou mais do que ela podia ou queria dividir.

Não pretendo, aqui, fazer uma apologia à solteirice. Venho aqui defender a liberdade das Leoas solteiras de caçarem para si mesmas, e de acharem parceiros ou parcerias que esperem que elas estejam dispostas a dividir. Porque, no fundo, é exatamente isso que as Leoas solteiras querem: alguém com quem dividir, e não alguém a quem servir. Pois não há nada que afaste mais uma Leoa solteira do que a insistência para que elas dividam quando ainda não estão preparadas novamente para isso.

Se algum dia uma delas lhe disser: “Estou solteira, sim, e bem, obrigada”, não tente dissuadi-la de sua posição. Espere com paciência. Vibre com as conquistas dela. Ouça com carinho seus anseios, e vá conquistando aos poucos seu espaço. Mas sempre sabendo que encontrará uma fêmea inteira, e não uma metade esperando ser preenchida. Se você não é páreo para uma Leoa solteira, procure por uma gatinha escaldada. Depois só não diga que eu não avisei.


sexta-feira, 23 de março de 2012

O Tempo e a Distância


A maioria dos leitores – e, por que não dizer todos os leitores – em algum momento da vida já ouviu, talvez de uma pessoa mais velha: “O Tempo cura tudo.” Acreditando nessa propriedade ora curativa, ora dizimadora do Tempo, vários artistas lhe dedicaram odes, como a bela música de Caetano Veloso sobre esse ancião respeitável e ameaçador, que carrega consigo a grande foice transformadora de fracassos ou sucessos, amores e desamores. Se o Tempo é um dos deuses mais lindos, é aquela figura mítica nem boa nem má, agindo de acordo com os próprios princípios. Dessa forma, seria melhor dizer não que o Tempo cura tudo, mas sim que mantém a roda da vida e do destino rodando em um ciclo eterno.

Todos os leitores – agora sim me aventuro a incluir todos – já passaram pela situação de dar “um tempo” no relacionamento, este tempo com letra minúscula e período indefinido. Mal sabem os amantes (ou “desamantes”) desavisados, mas o que estão dando não é “um tempo” e sim, “uma distância”. O tempo, de acordo com a sabedoria citada no início deste texto, cura, limpa, transforma. Não é ele que separa duas pessoas, para que cada uma possa pensar em seus propósitos e impressões. Quem pode realmente desfazer laços é ela, que não é vilã nem benfeitora por si só, mas que tem esse poder intrínseco de resolver impasses simplesmente impondo sua natureza: a Distância...

O tempo recria, reconstrói, refaz sonhos e esperanças... Quando bem utilizado, sim. E é possível duas pessoas fazerem uso de seus efeitos benéficos sem necessariamente estar separadas. É aquela pausa na turbulência, ficar no olho do furacão, a observação do voo longe, longe lá em cima, pensar consigo somente e com os próprios botões. E não é preciso da distância (física) para isso.

Bem sabemos alguns de nós (todos?) que é possível criar um abismo entre duas pessoas, e ainda morar na mesma casa. Pode-se passar o tempo que quiser com essa pessoa... Ainda assim, a distância não permitirá que o efeito curador do tempo recicle o que está obsoleto e recrie estruturas que não servem mais.

E, alguns de nós (aqui não cabe o “todos”) vivem a experiência de a distância precisar de navios, aviões, carros e alguma caminhada e, ainda assim, nosso algo querido e amado permanece ileso. Ou ainda, o tempo só contribui para que ele se fortaleça. A distância física, em si, não quer dizer muita coisa para os que ignoram sua incidência. O tempo é um aliado daqueles que estão perto, até mesmo sem se tocar. E a distância é a inimiga dos que se tocam, convivem, mas não chegam perto a um milímetro sequer.

O Tempo e a Distância são consortes, amantes, confidentes. Mas depende da forma como os encaramos para que seus efeitos permaneçam, revigorem, aumentem a energia benéfica que paira em nossas relações ou, ao contrário, dilacere e amargue tudo que antes fora doce. E, talvez o Amor, em todas as formas e sabores, seja a liga que prende Tempo e Distância unidos... Pelo infinito de espaço e tempo.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Fim

(Como me sentia em época de carnaval há 5 anos. Sentimentos de um fim...)


Foi covardia
Foi capricho
Até mesmo imaturidade,
Foi mesmo falta de coragem...
Não falta de coração,
De ousadia,
De viço,
De verdade...
Existia dentro de mim
Aquela chama...
Clamando por um nome,
Uma definição que nunca veio...
Foi por fim,
Por meio,
Por princípio!
Que princípio,
Se de início já não se sabia?
Se já lá dentro doía
Essa dor que eu não sentia?
Esse amor que não valia?
Essa lágrima tão tardia?
Tudo consumado,
Consumido,
Saturado,
Suturado...
Alquebrado
E Roto!
O Amor...
Vivido,
Mas caído,
Virado...
Em quê?
Em choro?
Em dor?
Em rubor?
Em pudor?
Em nada,
Nada, por fim?!
Fim...
Sim, o fim...
Esse sim,
Chora,
Dói,
Ruboriza,
Pulveriza
A tristeza...
Destrói a beleza,
A certeza
E a riqueza
De um princípio
Que já não mais
Está lá para ser visto...

Brasília, 27 de fevereiro de 2007.

Luz

Uma, duas vezes ouvi falar:
Para se poder alcançar
O inalcançável
Basta estender a mão
Além do que imaginar...
Tocar com o coração,
Escutar com o inconsciente,
Não inconsistente!
Mas fremente, eminente...
Como se a cada centímetro alcançado
Quadrado pudesse formar...
Nas pontas da glória
Arredondo minha história,
Na esfera de minha intenção...
Quero a canção
Não a equação correta!
Quero o poema
Não o teorema fechado!
Quero a poesia
Não a geometria dimensionada!
Quero poder somar o incorreto,
Lidar com hipóteses abertas,
Brincar com as formas adimensionais!
Passar de uma dimensão a outra,
De uma suposição a outra,
Pular os números redondos!
E arredondar o infinito...
Traçar linhas, calcular logaritmos abstratos,
Lograr ritmos imediatos,
Escrever entrelinhas!
Nas estrelas do céu...
Passar da mão ao papel,
Do coração ao mel,
De um buraco negro à luz!
E retornar, reluzindo,
Para dentro de meu peito...
Certa de que minha luz
Perdurará além dos meus membros,
Dos números que me mensuram,
Das opiniões que me censuram,
Para além do que me lembro...
Ao futuro infinito dentro de mim fazer jus...


Brasília, 14 de julho de 2005.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Queria ser andorinha...

Queria ser andorinha,
Assim pequenininha,
Para migrar rumo ao Verão,
Fugir da solidão
E deixar para trás o frio do desencanto,
Cantar o canto dos que alegram
Cada canto onde há luar...
Há lugar aí para mim?
Na imensidão sem fim
Do teu pensamento,
Um alento, um som, uma canção
Dos que buscam por um abraço?
Não o vazio do amasso,
Mas o calor vigoroso
Que degela o inverno da tristeza
- Aquela estranheza do rápido gozo –
A ilusão da emoção
Da andorinha sem Verão...
Veja, o vento que me leva
É o sopro da esperança,
Levando-te a lembrança
De que o amor ainda existe!
Amor de todos os tipos,
Em todos os sentidos,
Por todos os meios vividos,
Ainda que só amigos...
Ouça a prece que chega
Com uma suave orquestração:
Uma andorinha só não faz Verão,
Mas juntos, aproveitando os bons ventos,
Podemos fazer qualquer estação...


Brasília, 12 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A Luz de Lúcia

Gérson deixou como sempre os sapatos à porta enquanto arrancava as meias dos pés, afrouxava a gravata, despia-se do paletó e jogava displicentemente sua pasta de trabalho sobre um dos lados do sofá. Era quarta-feira, dia de jogo, então não perdeu tempo para pegar o controle e ligar a TV, jogando-se no sofá com maior displicência do que a pasta. E aquela era a final! “Finalmente”, pensou ele, “Algo na TV que não me fará dormir.” Mesmo sem tirar a roupa com a qual vinha da rua, esparramou-se no sofá esperando pelo início da partida. Mas pensou: “Na hora de pegar a cerveja na geladeira é que é ruim morar sozinho!”.
Levantou-se com preguiça e foi até a geladeira, ainda maldizendo a solidão, mas comemorando a solteirice. Ninguém para atrapalhá-lo a assistir o jogo, querendo contar como foi seu dia, que ele tire logo aquela roupa de um dia todo de trabalho e vá tomar banho, ou que queira ver um filme água com açúcar ao invés do jogo. Nada, além do sofá, a TV, a cerveja e o silêncio.
Por um tempo, sentiu-se nostálgico. Não só de desvantagens se faz um casamento... Fora casado por doze anos. Anos de algumas brigas, muitas conquistas e mais ainda de aprendizado. Uma época boa, aquela. Os dois se gostavam, conheceram-se ainda na faculdade, mas algo os levara a ficar juntos pela comodidade de montar um patrimônio comum, e não por amor. Com o tempo, ele cansou-se das cobranças em torno da vida financeira do casal, e ela apaixonou-se por outro homem. Nada que não pudesse ser previsto. E, de fato, apesar de ter sido um tempo bom, não foi tão difícil assim ficar sozinho... Mas ele, do alto dos seus 40 anos, já não queria noites de chegar em casa sem ter com quem conversar. Queria se apaixonar, dividir não só coisas, mas uma vida. E isso ele nunca tivera.
O narrador anunciou o início da partida, e tirou Gérson de seu devaneio. Ele se acomodou cuidadosamente no sofá, para não derramar a cerveja já aberta, colocou seus pés sobre a mesinha de centro da sala e sorriu, satisfeito. Nada poderia atrapalhar aquele seu descanso. Nada...
Subitamente, um breu tomou conta de seu apartamento, da rua e, pelo jeito, de boa parte da cidade. Pôde ouvir da janela as vaias e gritos de outros torcedores, que provavelmente já estavam, assim como ele, sorrindo sentados em seus sofás, com uma cerveja na mão. Alguns gritos femininos de desgosto pareciam denunciar torcedoras fanáticas, acompanhando seus namorados, familiares ou amigos... Ou, então, espectadoras assíduas da novela, provavelmente em alguma parte de suspense ou romance.
Gérson maldisse a companhia energética, soltou alguns palavrões em voz baixa (costume ainda dos tempos de casamento, quando sua ex-esposa não gostava de ouvi-lo pronunciar tais palavras) e concluiu que, a melhor atitude seria procurar uma vela, uma caixa de fósforos e tentar tatear até o balcão da cozinha, a fim de posicionar a cerveja de forma que não esbarrasse nela.
O mais difícil não foi posicionar a lata de cerveja, mas foi preciso iniciar uma verdadeira epopeia heroica atrás de uma vela e uma caixa de fósforos. Onde os tinha deixado mesmo? Não é possível, sempre os deixava no mesmo lugar, para não perdê-los! Naquela partezinha da janela da cozinha, em cima da pia!... Lembrou-se então da sua empregada doméstica. Ela tinha assim uma certa mania de colocar as coisas em locais, digamos, menos acessíveis. Gérson não sabia ainda se ela sarcasticamente gostava de fazê-lo procurar as coisas pela casa, ou se só detestava ver coisas “fora do lugar”. A cozinha e a sala (mais especificamente o sofá e a TV) eram os locais que ele mais bem conhecia do apartamento novo, que adquira logo após a separação, fazia apenas poucas semanas. Ainda não tinha passado pela situação de ter de tateá-lo para procurar coisas como uma vela e uma caixa de fósforos numa noite sem lua. “E essa luz que não volta?!”.
Nada de luz. Os minutos iam passando, e ele só conseguia pensar no jogo... Bom, na vela e nos fósforos também, que deviam estar em algum lugar do depósito. Mas... Onde é que ele ficava mesmo? Gérson foi tateando paredes, pois no escuro total é muito difícil se ter direção num lugar que pouco se conhece. Enfim, chegou a uma porta. Como de costume, as chaves estavam penduradas na fechadura. “Para que serve uma porta trancada se as chaves estão na porta?”. Não teve tempo de explanar sobre o assunto. Destrancou a porta e a abriu. Ainda não podia ver nada, mas percebeu alguma coisa de estranho. Onde estavam as prateleiras que apertavam o corpo contra a parede? Tateou mais um pouco...
Um gemido alto o fez levar um susto daqueles. Seu coração quase veio parar na boca. Um rato? Mas como poderia trombar num rato que parecia ter por volta de 1,60m?! Não é um rato, é...
- Desculpe! - falou uma voz macia.
O susto dele agora foi maior. A empregada ficara trancada no depósito?! Não, que ideia mais louca! E não era a voz dela. Nunca tinha ouvido voz mais bonita em toda sua vida. Por um momento, em sua confusão naquele escuro todo, pensou por um momento em ter se apaixonado por aquela voz. “Deixe de bobagens, Gérson... Fale alguma coisa!”

-I-imagina, a culpa foi minha... - respondeu, sem saber. - Desculpe o comentário maluco, mas eu achava que tinha entrado no meu depósito.

Ela riu. E que riso maravilhoso! 

-Estamos no corredor do andar. Talvez tenha se confundido... Você é novo aqui, não é? 
-Sim... Me mudei há poucas semanas. Acho que não nos conhecemos ainda...
- Com certeza não. Eu trabalho demais, sabe? Quase não paro em casa.
É, eu também. Deve ser por isso.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

-Estranho nossa primeira conversa ser logo hoje, nessa situação... - Ele tentou estender a mão, mas se deu conta de que não enxergava nada. - Prazer, Gérson.
- Lúcia. Não se preocupe. Na verdade, acabei de chegar em casa. Não gostaria de entrar? Para termos uma conversa melhor entre vizinhos.

Gérson se surpreendeu com a desenvoltura e simpatia da moça. Sentiu-se confortável naquela situação, mesmo sem saber se deveria aceitar o convite. Lúcia parecia ser alguém que não se importava com convenções sociais, com regras vazias e não demonstrava medo por acontecimentos inesperados. Sendo levado por aquela onde destemida e animada, Gérson respondeu:

- Claro, adoraria entrar. - Ele pôde perceber o sorriso largo de Lúcia.
- Venha, por aqui. Deixe-me só pegar as chaves para abrir a porta.

Lúcia passou a tatear vigorosamente sua bolsa a procura das chaves. Enquanto Gérson esperava, sentiu com estranheza algo que encostava em sua perna e parecia dar farejadas para todo lado. Dessa vez, só podia ser uma coisa: o rato! Ele deu um pulo que, não fosse pelo sedentarismo das noites de futebol na TV e cerveja, teria feito com que chegasse ao teto. Lúcia prendeu a respiração de susto.

- O que foi?! Aconteceu alguma coisa?
- Um rato! Farejando a barra da minha calça... Um rato bem grande, eu diria!...

Lúcia se recuperou do susto, suspirou aliviada e riu novamente. Ai, ai... Dessa vez o suspiro foi de Gérson.

- Não é um rato, é minha cadela da raça labrador! - E riu mais ainda. - Luz, diga olá para nosso novo vizinho!
Gérson sentiu algo que pulava nele com muita festa, mas Luz não latiu. Até achou interessante, pois nunca ouvira falar de uma cadela com aquele nome tão peculiar...

- Pronto, garota! Agora já estamos devidamente apresentados. Luz se chama assim, pois é ela que ilumina meu caminho. É minha única companhia. Não é, coisa fofa?

Lúcia acariciou vigorosamente a cadela, que pareceu ficar animada.

-Agora Luz entrará em seu período de descanso. Ela me ajuda muito!
- Claro... - Gérson deu um sorriso amarelo sem entender, mas, ainda assim, achou interessante como Lúcia tratava a cadela como se fosse um membro de sua família.
Venha,  entre!

Gérson entrou no apartamento de Lúcia como quem adentra um templo. Pela reverência, sim, mas também por não estar enxergando absolutamente nada naquela escuridão.

Não precisa fazer cerimônia... Segure a coleira que Luz te levará até o sofá.

Claro... pensou Gérson. Afinal, o nome dela era Luz, não? Bem que, naquele momento, ele queria que a outra luz estivesse ali, não para que ele pudesse ver o futebol, mas para que conseguisse ver o rosto de Lúcia... Não estava se aguentando de curiosidade.
Gérson e Lúcia conversaram por muito tempo, mas para os dois o tempo simplesmente não existia mais. Falaram sobre tudo: trabalho, lazer, esportes, artes, filhos, casamento e, é claro, sobre a luz.

- É... Não parece que a luz vá voltar logo.
- Ela já está aqui do meu lado, acho que estava com sede.
Como? Ah, sim, a Luz... Claro. - Gérson se divertiu com a confusão. Lúcia, por seu lado, mudou logo de assunto. E como era falante, alegre, cheia de vida. Ela sim, parecia a luz na vida de Gérson.

Algum tempo depois, a luz, aquela que interrompeu o jogo, voltou aos apartamentos, ao bairro e a grande parte da cidade. Gérson estava tão acostumado à escuridão, que teve de ficar com os olhos fechados por alguns segundos. Não se ouviu os gritos dos torcedores ou das espectadoras das novelas, pois àquela altura tanto novela quanto jogo já haviam terminado.
Ao abrir os olhos, Gérson teve a sensação de estar na presença de um anjo. Pele alva, lindos lábios, longos cabelos, olhos...

-Finalmente, a luz voltou! - disse Gérson, feliz por sua descoberta.
-Como é?

Gérson estranhou.

-Estávamos sem luz há algum tempo...
- Ah, desconfiei mesmo que estávamos sem luz... Mas, a Luz está aqui para isso, claro ou escuro não fazem muita diferença pra mim...
Então Gérson compreendeu. Lúcia não podia enxergar, e Luz era seu cão-guia. Em nada aquela informação fez diferença em sua percepção daquela mulher. Ela não precisava nem de luz, nem mesmo da Luz, pois tinha brilho próprio.

- Já que você agora pode ver, que tal jantarmos? Estou morrendo de fome desde que cheguei... - E sorriu seu lindo sorriso.

E um jantar se transformou em jantares. Beijos se transformaram em promessas. Sonhos em namoro. E o namorou, depois de um tempo, não mais os satisfazia. Marcaram o casamento. Gérson teve dificuldade de encontrar uma aliança que brilhasse tanto quanto Lúcia.
Após a cerimônia do grande dia, a festa. Todos os convidados já presentes, divertindo-se entre parentes e amigos. Luz, como sempre, iluminando o caminho da noiva. Em determinado momento, o breu. Ouviu-se uma grande vaia coletiva, enquanto Lúcia perguntava à sua mãe:

-O que aconteceu, mamãe?

Gérson entra com uma lanterna voltada para seu rosto, falando ao microfone.

- Acalmem-se todos, isto não é um apagão! Foi assim que Lúcia e eu nos conhecemos. E foi dessa forma que eu realmente consegui enxergá-la, e ver o mundo através da luz dela.

Luz inesperadamente deu um latido sutil.

- Desculpe, Luz, mas dessa vez não estamos falando de você.

Gérson aproximou-se de sua esposa, já em prantos, e terminou.

- Claro e escuro não fazem mais diferença para mim, pois você ilumina meu caminho, sempre.

Grandes aplausos, choro de tias desavisadas, tilintar de copos, farejadas de Luz e alguns tropeços bastante sonoros de alguns dos garçons. A festa correu como realmente devia, da forma como Lúcia via o mundo: cheio de sons, de cheiros, de abraços, de carinhos.
E a vida de casados foi assim também. Nem sempre os estímulos aos sentidos eram agradáveis, pois Lúcia sempre dizia que não acreditava em “felizes para sempre”, e Gérson já havia vivido isso na pele. Mas, enquanto eles tivessem Luz e aquela escuridão na qual se conheceram, estariam bem.

sábado, 24 de dezembro de 2011

YULE

E a Roda roda novamente...
A alegria retorna pelo ventre da Deusa,
Madura e mãe zelosa,
com o filho da promessa nos braços.
Ele ainda tímido, em sua pequenice,
mas com a força latente em seus raios.
Num traço de meninice,
Anda engatinhando sobre a neve espessa,
porém sem medo,
seguro de seu potencial.
Sabe que é na maior escuridão que reside a esperança,
um ponto zero do universo que guarda em si toda a força,
Um entrelaço do tempo e do espaço,
Onde a semente hibernada espera,
mas já prenuncia seu grandioso futuro de árvore madura...
Onde estamos é onde precisamos estar,
quando estamos é quando precisamos estar.
Honremos nossa força latente,
iluminada e imponente,
despertemos os planos e sonhos adormecidos
por expectativas e sonhos irreais
para nos prepararmos para os demais
meses que virão...
Como um sopro de bênção,
ouçam sua voz interior,
ela é a voz da Deusa e do Deus em você.
Cuide de suas sementes, alegre-se com a promessa,
e plante apenas as que valem a pena.
Nunca se esqueça:
Como a grande roda que nunca cessa,
a escuridão prenuncia a luz,
a luz prenuncia a escuridão,
num ciclo eterno que não tem pressa...