Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


sexta-feira, 8 de abril de 2011

O atirador do Rio

      Sempre que ouvia falar em tragédias em que um homem, geralmente jovem, entrava em um prédio (cinema, escola, shopping center) fortemente armado e iniciava uma matança aparentemente desorganizada – logo após se descobriria que tudo fazia parte de um plano ardiloso alimentado em uma mente perturbada – de civis em suas atividades corriqueiras, pensava, com meu pensamento ora medíocre, ora covarde: só pode se tratar de mais um daqueles estrangeiros querendo imitar as superproduções norte-americanas. Assim, eximia-me da necessidade e do sofrimento de pensar que, tanto algoz quanto vítimas, eram seres humanos, como eu. E que, mesmo se tratando de algo acontecido em um país estrangeiro (às vezes distante apenas por um oceano, ou nem isso... E o que é um oceano para o ser humano, hoje em dia?), mostrava a decadência e falência de toda uma sociedade. Não parava para pensar que a grande tragédia não eram apenas as mortes, mas o cúmulo de uma pessoa, perdida, abatida, sacrificada por toda uma vida, chegar a não sentir qualquer remorso ou culpa por tirar, muitas vezes à queima-roupa, uma outra vida humana.
E como falar em tirar vidas humanas, se fazemos isso constantemente com animais? Se ignoramos a existência de uma pessoa maltrapilha dormindo embaixo de um viaduto? Se admitimos que políticos ganhem décimos-terceiros, quartos e quintos (e ainda ganhem o “excedente de campanha”) enquanto professores não ganham sequer um salário para trabalhar às vezes mais que quarenta horas por semana? Os mesmos professores que lutam para dar uma vida melhor para alunos que, após menos de uma hora do início de um dia de aula, morrem brutalmente pelas mãos de um jovem que (ironia do destino?) também fora seu aluno...
Não se trata de inverter os papéis de vítimas e algozes. E é fato que uma pessoa que faça algo como o atirador do Rio (que, assim esperamos, não seja o primeiro de uma espécie, mas o primeiro e o último) tem uma estrutura de personalidade que propicie a realização do ato de violência. Mas já passamos da época de achar que um ato de proporções catastróficas como este seja de responsabilidade apenas de seu autor. Ou será que não?
Hoje ouvi perplexa o comentário de um psiquiatra, num dos mais assistidos jornais televisivos da manhã, que “pessoas desse tipo já nascem assim, e é somente uma questão de tempo até que manifestem a ruptura da personalidade”. Ele falava, no caso, da psicopatia (que, em minha visão de psicóloga, não se encaixaria ao caso, mas sim um surto psicótico envolvendo, inclusive, alucinações). Será que se trata somente de algo do indivíduo? Ficaremos eternamente procurando “bodes expiatórios” para nossos problemas sociais?
Acompanhei atentamente a parte da reportagem que descreveu a vida do atirador. Tímido, virgem, fanático, desorganizado, distante, com ideias mirabolantes sobre ataques terroristas que, apesar das tentativas da sua falecida mãe adotiva em levá-lo a psicólogos (sim, ele passou por psicólogos, segundo consta), terminou em uma vida de abandono, aquela “pessoa invisível” que não acrescenta, mas também não atrapalha. E ele era assim visto pelos vizinhos, que tentavam sim tratar-lhe com carinho, aquele carinho que dedicamos a um (mero) desconhecido, e não a uma pessoa que existe, e tem importância. Ele se fazia não ter importância. Era mais ou menos como aquela aranha silenciosa que perambula pelas paredes e não nos causa problemas, até que ela resolva invadir nosso lençóis à noite e nos desferir mordidas mortais. E foi exatamente isso que aconteceu: o “inseto” mostrou que veio ao mundo por algum motivo. Que ele também tem suas armas, e que apenas resolveu usá-las porque foi, no fundo, um incompreendido.
É possível que eu esteja, sim, romanciando a história. Foi realmente uma tragédia sem precedentes. Mas de que parte da tragédia estamos falando? De alguns minutos de terror no qual faleceu o futuro e morreram os sonhos de 12 crianças (ou mais, ainda não se sabe), ou nos anos e anos de sofrimento pelo qual passou um “inseto”, assim tratado pela sociedade? Sim, ele teve as pessoas que quiseram e tentaram ajudá-lo. Sim, ele tinha um desvio sério de personalidade. Mas até que ponto fomos cegos para enxergar as reais intenções daquele rapaz? Até que ponto fomos surdos a seus gritos de socorro? E até quando vamos ignorar os gritos de socorro daquela criança que é abusada e violentada, daquele idoso espancado em casa, daquela mulher estuprada, do pai desempregado, do índio marginalizado, do animal maltratado, das árvores queimadas, de todo, todo um planeta sem pai e nem mãe? Até quando vamos desrespeitar e sucatear o núcleo familiar e aguentar que a mídia e o governo coloquem a culpa toda em cima dele? Até quando vamos ter rapazes suicidas entrando em escolas e atirando a esmo e mirando, principalmente, meninas?
Essas são todas perguntas, até agora, sem resposta... Cabe a nós sabermos se vamos continuar surdos-mudos de uma sociedade sem direção, ou se vamos arregaçar as mangas para criar nossas próprias respostas.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Votos


O Amor é uma experiência sublime...
Será? O correto, talvez, seria dizer que o Amor é uma experiência, apenas. Em verdade, mesmo que não se tenha vivido um Amor digno da grandeza de uma alma, ou da infinidade do universo, não há como alcançar o sublime sem passar incólume pela experiência do Amor. Pois, somos nós que passamos pelo Amor ou será que é ele quem nos perpassa? Como o tempo transformando o espaço, como os sentimentos e as sensações que nos atravessam a fim de manter o movimento de nossos corpos.
Nesse ponto reside a beleza e até a sutileza de enxergar o Amor como uma experiência: ela não tem fim, não pode ser mensurada, somente vivida. E, vivendo-a, a alma se transforma. Passando e sendo perpassada pela experiência, não mais amorfa, mas morfizada pelo sentimento.
O Amor nos ensina que o sublime não é suficiente. É preciso ser terreno, estar permanentemente nessa dança sagrada entre o Céu e a Terra. O Amor funciona como a força gravitacional que atrai um corpo ao outro... Ainda que através dela entendamos que algumas partes não podem – e não devem – ser coladas uma a outra. Hora ou outra existirá algo no Ser Amado que seja repelido – e aí é que está a magia do Amor. Através dele somos capazes de olhar fundo, como se admirando um buraco negro, e abstrair a luz...
O Amor nos une não pela busca do que é sublime, mas por essa necessidade certa e humana de irmanar harmoniosamente nossa parte terrena, do ventre, ao nosso sublime, que paira acima de nossas cabeças... É por isso que ao Amor é associado o coração. Pulsante, em um movimento quase eterno, ele une o que é terreno e sublime dentro de nós.
Poeticamente e sonoramente num uníssono, venho para me juntar pelo coração ao que é meu e seu, para que exista o nós. Convivendo com essas forças de atração e repulsão, numa dança viva de ida e vinda, que nós possamos estar trilhando um mesmo caminho e encontrar um lugar só nosso. Onde o Céu e a Terra se unam, e nossas forças estejam em perfeito equilíbrio.
Amo-te, sob a insígnia desse Amor acima descrito... Amor e Confiança.


Brasília, 24 de setembro de 2006.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Sol Poente


Não foi preciso muito...
Em um minuto
Tudo parecia estar em seu lugar.
A primavera veio antes do tempo,
Em um outono
De folhas caídas sobre o chão de nosso
Pensamento...

Flores caíram do céu
E pousaram certeiras sobre o coração...
Ainda trancafiado,
Na fuga da emoção,
Na insensatez do consolo...

Em uma mescla de cores
O Amor veio...
Em certeza
De estar frente, rente
Ao mais certo de todos os sentimentos.

Interveio...
Como uma providência
Cálida vinda do poente...
O astro, em sua trajetória solitária,
Amou em dimensão planetária
Ao descobrir do outro lado a Lua...

Nua
Já estava a emoção...
Bastou uma canção
Um gesto,
Um gosto,
Um rosto
Olhando nos olhos,
O apreço e o endereço
Distante em uma fração...

De segundos,
De algumas horas de viagem,
Um grito certo de paciência:
Não temas,
Pois é chegado o momento...
Será não o cessar do teu tormento,
Mas o início de uma possibilidade...

O que é o Sol seguindo para dentro da Terra
E dela retornando
Senão uma possibilidade?
Cada novo dia é sempre uma nova possibilidade...

Uma verdade que não pode ser dita,
Mas vista...

Em teu olhar,
Em teu peito,
Em tuas vestes...

Verte teu choro,
Verte teu sentimento,
Não te arrependerás...

Pois o coração é teu,
O que vivemos não se pode tirar...

Somos duas possibilidades
Que se encontram lentamente
Num sonho vivente,
Numa sombra de razão...

Encanta-te o Sol poente
Pois é ele que te leva pra dentro de ti...
Pela noite adentro,
Encandesce em cores,
Em odores e em virtudes:
Não te iludas,
Não te assustes,
Estaremos juntos.
Ainda que sem saber ao certo por quanto.
Tempo temos...
O Amor é uma possibilidade.
Cabe a nós torná-la real...
 


Brasília, 21 de julho de 2008.

sábado, 12 de março de 2011

AR


Sobre planos,
Acertos e enganos,
Planamos...
Feito Águia
Levando os sonhos
Em nossas asas
Douradas pelo Sol!
O ápice,
O desenlace de nossa memória,
E mais uma vitória
De todos os sonhos!
A palavra,
Expressão certeira
Que nos diferencia dos animais
E nos aproxima dos Deuses!
Essa chave-mestra,
A inspiração de todos os sentidos,
Em todas as direções...
Aponta nosso destino,
Seta de nossa emoção,
Guia-nos por onde vamos,
Somos e crescemos,
Trazendo os dons por nossa respiração!
Ar que nos envolve,
Ar que nos inspira,
Inspiremos!
Inalemos!
Festejemos
Nossa consciência etérea!
Que vem em forma de ondas
Ultrapassando barreiras,
Perpassando brechas,
Através das quais
Passamos com sua flexibilidade...
No chão os pés se fixam,
Mas é na atmosfera que os sonhos viajam!
Veem além do alcance da mão,
Onde deslizam os raios de luz!
Elemento da magia,
Da força da intenção pela palavra,
Guie-nos,
Fortaleça-nos,
Ilumine-nos,
Para que possamos realizar,
Com destreza, inteligência e concentração,
Todos os nossos propósitos!

Brasília, 17 de setembro de 2007.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Coração de Artista



Enquanto me aproximo de meu desafio,
Numa leve e doce caminhada,
Posso sentir meu coração bater...
E como é bom senti-lo bater!
Pela primeira vez com o vigor
Que deveria sempre lhe ser característico!
Sorver
Da mais pura criatividade
A sensação de saudade,
A magia ousada
De estar por um fio...

Como é bom poder sentir
Meus pés fora do chão!
Ainda assim sentir a terra
E nada mais em guerra
Dentro do meu peito...
Sorrir
Como se pela primeira vez!
E mais uma vez ouvir bater meu coração...

Sentir a fluência
De meu sangue
E ao mesmo tempo ouvir a eloqüência
Dos sentimentos nos sentidos despertos...
Que ninguém mais se engane,
Pois isso sim é ser artista!
Poder olhar para a própria conquista
Com a inocência da primeira viagem,
E a consciência de estar só de passagem...

Por um estado de existência colorido,
Pintado,
Cantado,
Dançado,
Interpretado,
Vivido!

Para que eu mesma possa escrever
As falas de minha vida,
Descrever as formas,
As margens,
Os limites...
Não normas
Mas imagens,
Palpites...
De que uma nova vida agora se inicia...
Com a autenticidade de minhas mãos!

Agora sim,
Como é bom sentir meu coração!

Brasília, 03 de novembro de 2005.

segunda-feira, 7 de março de 2011

De trás para frente


De vez em quando, é bom começar de trás para frente. Comer antes a sobremesa, começar o aniversário cantando parabéns, soprando a vela e cortando o bolo. E por que não, cortando o bolo, soprando a vela e cantando parabéns? Ou até, quem sabe, ler um texto do fim...
É fato que nossa vida tem uma seqüência lógica. Tem sim, mas não tem a obrigação de ter. Acordar, escovar os dentes, tomar o café da manhã... Em verdade, seria muito esquisito se começássemos o dia de trabalho batendo o ponto de saída. Mas a vida é cheia de variações, de ritmos e de cores, de sensações e até de odores que se perdem por não alcançar o nosso infinito ritual de seqüência. Fila, faixa, roleta, catraca... Tudo em ordem. Mas, nessa ordem seqüencial por acaso o inverso também não seria uma ordem? Seria a ordem inversa, responderiam alguns. Sim, mas não perderia seu caráter de ordem.
A proposta aqui não é olhar o reto ao inverso, pois assim mesmo seria reto. É perceber o quanto somos dimensionados e até mesmo atados pela necessidade humana de seguir a seqüência. A Matemática é seqüencial, a Física e até mesmo o Português. Talvez nos abra essa falta de ordenação a Arte. Tente olhar um quadro de trás para frente, de cima para baixo, de lado, de costas, e se delicie com as possibilidades que a admiração traz. Uma música, ouvida de trás para frente, pode causar sensações nunca antes sentidas com a mesma obra. Pode até trazer uma mensagem secreta para seus ouvidos. Um filme assistido de trás para frente nos revela uma perspectiva completamente nova do enredo.
Ora, mas começar pelo final tira o gosto da surpresa! Depende da forma como se encara o conhecimento do que vem a ser o final. Pensemos bem: se vemos primeiro o fim, ele passa a ser para nós o começo. Dessa forma, o começo é o algo não revelado, é o algo secreto da trama. Portanto, não perdemos o componente surpresa. Apenas deixamos para saber como foi quando já sabemos o que é.
O tempo talvez seja algo mais complicado. Tente olhar o futuro antes do passado, como se aquele fosse a causa deste. Complicado? Nem tanto. Temos o presente como a junção entre um e outro. Ainda que o futuro (desconhecido) seja na verdade a causa do passado (conhecido), teremos o presente para unir as duas peças de um (nem tão) louco quebra-cabeça. Mas lembre-se do que foi dito no início deste texto. Muito do nosso futuro pode ser, no mínimo, previsível. Sabemos que iremos dormir ao final de um dia. Que surpresa! Se pensarmos em dormir e acordar, ou em estar acordado e dormir, seria a mesma coisa?
Talvez aí esteja a chave da questão. Que, em verdade, nem é tão pouco uma questão. É a forma de se ver algo sem, no entanto, precisar se desvincular dele. Posso olhar meu corpo de trás para frente e, ainda assim, ele seria o mesmo. Mas a minha percepção dele seria totalmente diferente. O interessante é constatar que, no fim das contas (ou no início delas, se você começar de trás para frente), o que nos importa não é excluir ou maldizer a seqüência, mas perceber que fim e começo nem sempre precisam ser os mesmos. A grande descoberta é poder apreciar detalhes que ficam prejudicados por conta da infalível seqüência lógica da vida.
Vamos a um desafio. Olhe para si mesmo no espelho e conte até dez. Agora conte de dez a zero. Certo, certo, esse não é um desafio à altura da nossa discussão. A Matemática talvez seja a linguagem universal, mas não é capaz de soltar-se das amarras da seqüência. Ouça então uma música ao inverso. Comece uma festa pelo final. Coma antes a sobremesa. E, para começar, leia esse texto de trás para frente.

Brasília, 17 de junho de 2007.

sábado, 5 de março de 2011

O Sexo e o Amor, o Amor e o Sexo

Sexo e Amor fazem parte de um mesmo ciclo.
O Sexo é a ferramenta para materializar o Amor... Para mostrar mais e mais o que há de profundo nele...
O Amor é o que dá sentido ao Sexo... Aquela liga cósmica que mantém os corpos unidos, sedentos por algo que os misture em uma dança mágica, sem barreiras, sem obstáculos, sem divisões por fim...
Navegar entre o Uno e o Divisível, entre o Infinito e o Vazio, entre a Criação e o Renascimento...
O Universo, em seu majestoso movimento, nos revela uma forma genuína de Amor e de Sexo... Suas estruturas colidem, explodem, circulam e por fim se atraem apenas para poder criar algo magnífico, para além de sua própria compreensão...
O Cosmo ama e faz amor com suas grandes Estrelas e seus diversos Planetas!
E nós reproduzimos esse espetáculo com nossas pequeninas células...
Amor e Sexo fazem parte de um mesmo ciclo...


Brasília, 26 de dezembro de 2006.