Sou um caso raríssimo de (des)construção de personalidade.
Daqueles de mesmas pessoas que (sobre)vivem em um (só) corpo.
Ou vários corpos idênticos que (con)vivem em uma pessoa (só).
De uma identidade (só)lida que se constrói
a cada (res)piração de cada segundo de vida.
Um bando de (parên)teses sobre uma coisa (só).
Não sou lá muito de conceitos,
(pré)concebidos de algum ponto único.
Sou de projetar a verdade para além de (pré)conceitos.
Sou responsável, mas não me responsabilizo.
Nem eu mesma (con)fio meus fios ao que escrevo.
O que escrevo (não) se escreve...
Só.
Utilizando...
Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;
Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.
Raquel Capucci
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;
Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.
Raquel Capucci
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
A Cartilha
A luz ardeu em seus olhos ainda mais forte
quando o vento brincou sarcasticamente com a leveza das cortinas. A orgulhosa
manhã mostrava todo seu poder, enquanto lá fora o mundo se recuperava
lentamente da embriaguez causada pela tempestade.
Seu corpo, ainda um pouco dormente, estava
abraçado à lanterna usada para iluminar o papel em que escrevera aquela última
carta...
“A carta!...”
Levantou-se desajeitadamente e caminhou até a
janela. Os olhos arderam antes que pudesse olhar para fora... e perceber o
óbvio. Todos os seus últimos sentimentos motivados por sua trajetória amorosa
até aquele momento haviam voado livres pela rua, talvez pela cidade. E, pela
última vez, referiu-se ao personagem mitológico que povoara seu inconsciente
por todos aqueles anos. A quem endereçara confidências, desejos, sonhos...
todos endereçados, na verdade, aos seus próprios pensamentos.
Inspirou e expirou o ar lentamente com os olhos
fechados. Deixou que sua mente refizesse os passos até ali, como um filme numa
tela de cinema. Em seguida, olhou a lanterna em suas mãos... e resolveu que não
precisaria mais daquele foco artificial sobre os objetos e emoções perdidas no
tempo.
Decidiu esquecer tudo aquilo por um momento,
entregando-se como um robô à rotina matinal. O olhar ainda voltado para dentro,
como se alguma coisa tivesse lhe escapado. Alguma peça de todo aquele
quebra-cabeças estava fora de seu lugar. Talvez a autopiedade da noite anterior
amolecera seu julgamento ao ponto de não lembrar-se que era responsável por
todos os passos tortos que dera até ali. Passos tortos motivados pela
embriaguez com os próprios sonhos, pela atmosfera onírica inebriante. Prendera-se
a seu papel de vítima e esquecera que a responsabilidade por tudo que vivera
estava esquecida e relegada a uma caixa atrás da porta.
Apoiando-se sobre a pia do banheiro, olhou-se
demoradamente no espelho. Era um reflexo maduro, que poderia dar-se ao luxo de
embriagar-se de sonhos, de suas próprias lágrimas e de vários copos de algo da adega.
Uma imagem adulta, que poderia caminhar resoluta sobre a própria história sem
tropeçar. E, ainda assim, via-se tão inocente quanto uma criança que vê seu
reflexo pela primeira vez.
Ali mesmo, diante dos olhos que deveriam
enxergar-se como eram, esqueceu-se do cansaço. Esqueceu-se das mágoas, das
desilusões, de todo o apelo do ego - ao qual sucumbimos quando estamos bêbados
de nossos próprios sentimentos, naquele estado em que nada mais importa do que
sentirmos para além de nós mesmos. Não queria mais embriagar-se de si... queria
viver para além do ego.
O som da campainha quebrou o encanto de seu
devaneio. Foi até a porta como quem já esperava visitas.
Por um momento, pensou ver seu reflexo, mais uma
vez...
- Sim?
- Bom dia. Peço desculpas por importunar esta
hora da manhã...
- Não importuna... – silêncio. – Ahm... Você...
- Moro no apartamento ao lado. Acabei de me
mudar.
Olhou aquela figura com certa descrença. Não que
sua presença àquela hora da manhã não fosse bem-vinda... mas... que presença?
- Achei por bem avisar deste pacote à sua porta.
Outra caixa...
- Agradeço.
Não estava esperando pacote nenhum. Mas nele
estava escrito seu nome. Sem remetente. Olhou para o corredor do andar, e
novamente para a figura desconhecida em frente à sua porta. Algo parecia
familiar...
Rasgou o papel como uma criança que abre seu
presente. Abriu-a com curiosidade. Retirou de dentro dela um objeto e um papel
com alguns escritos.
Franziu as sobrancelhas, achando tratar-se de
uma piada. Mas os escritos eram muito sérios.
*
Tu não precisas mais de mim... pois sabes do que
precisa. Entrego-te meu ofício para fazeres dele o que desejares. Mas lembra-te:
ele só pode ser usado uma única vez. Ainda que tenhas várias chances, o caminho
é um só... e tu já sabes qual é. Entrego-te a cartilha como me entregaste a
carta. Sabes o que deves fazer. Abra-te como abriu este presente... como uma
criança.
Com amor,
Cupido
*
Olhou para dentro da caixa descrente. Ao colocar
a mão para retirar o objeto, espetou o dedo em algo pontudo. Em um movimento
automático, levou a mão à boca para sugar o sangue. Mas a dor foi muito maior
do que apenas um corte no dedo. A dor foi como se tivessem lhe perfurado o coração.
- Você está bem?...
Quando deu por si, estava recebendo socorro de
alguém que ainda não conhecia... Alguém a quem enxergava com os olhos de
criança.
- Senti uma dor estranha no peito... mas acho
que não é nada.
- Pode ser grave. É melhor chamar alguém...
Colocou a mão no peito para amenizar a dor.
- Não... não há ninguém para chamar.
- Então ficarei com você por um tempo.
- Não... não precisa...
- Não fico porque preciso... fico porque quero.
E sorriu seu sorriso mais lindo. O sorriso
descompromissado de quem já soube se abrir para o mundo.
Abriram-se pelo resto do dia.
Abriram-se por outros dias.
Abriram-se por longos anos.
Abriram-se para ver sonhos alçarem voos pela
janela...
E finalmente decidiram abrir-se para escrever
cartas de uma nova história...
Para escrever a cartilha como bem entendessem...
Como se pela primeira vez.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
A Carta
Já não era mais um aprendiz...
Era o que tinha de ouvir toda vez que, em
desilusão, voltava às barbas do velho mestre para vislumbrar um novo caminho.
“Não existe caminho certo nem errado... pois o
caminho é um só. Basta que saibas disso, e estarás sempre rumando para onde
deves chegar.”
E aquelas eram as palavras que martelavam em sua
mente desde que saíra num mundo desconhecido e vazio de paixões. Ah, que árduo
ofício o seu, em um lugar onde pessoas se procuravam por caminhos tortos e que
não sabiam enxergar-se quando se encontravam! Já se cansara de vaguear, em noites
enluaradas ou no profundo breu, em ventanias e tempestades, em brisas mornas e no
chão coberto da mais cruel solidão. Camas continuavam vazias de intimidade ou
cheias de corpos que se encontravam, mas não se preenchiam. Amores que não
sentavam à mesa, que não desvelavam a cortina dos segredos, que não olhavam no
fundo dos olhos. Amores, enfim, que não se “abriam”, no sentido que o mestre
havia muito bem dito quando ainda era um aprendiz.
Mas já não era mais um aprendiz... já não era...
não era? Ainda não se convencera. Não se convencera de que não era preciso
aprender e deixar-se apreender todos os dias pelo mesmo sentimento. Que não era
preciso olhar com os olhos inocentes a cada novo dia, a cada novo dormir e acordar
naquele tempo que não era um tempo. E mesmo que se esforçasse, mesmo que
soubesse como deveria agir, parecia não obter sucesso em todos aqueles anos
humanos.
Sim, houve olhares, beijos, toque e sexo.
Paixão... muita paixão. Patologicamente vivida, em mesma raiz. Inebriante,
sublime, até um pouco incômoda... mas era verdade que, por mais que quisesse
fazer alcançar o patamar seguinte e ao mesmo tempo ao lado – o Amor – não fora
capaz de fazer dar o passo adiante. Sim, pois na paixão não é preciso abrir-se.
Na paixão saem espontaneamente as faíscas, brilham numerosas as estrelas, exalam
as essências das flores ao redor. No amor, não. É preciso enfrentar a
tempestade para ver faiscar o céu, é preciso dissipar as nuvens para ver
estrelas, é preciso enfrentar os ventos do inverno para ver florescer a
primavera e seus odores. E ninguém quer mais aprender a perder para poder ganhar...
*
A noite estava mais fria que de costume, o que
fazia da sua vigília algo ainda mais estarrecedor. Do alto podia ver a cidade
toda e cada um dos “não mais aprendizes” em seus postos, sedentos por algum
resultado. Talvez tivessem - também eles - perdido a noção do que era verdadeiramente
importante...
Olhou seu reflexo na vidraça da
janela. Por um momento, esqueceu-se do que deveria observar e inspirou-se na
visão instintiva de um aprendizado que perdera. Mundos que se misturavam, mas
que não existiam um para o outro. Assim como os mundos pessoais que se
esbarravam acidentalmente, mas que sentavam à mesa sozinhos, declamavam um novo
monólogo a cada manhã, jogavam o corpo em camas vazias de intimidade... com o
outro e consigo mesmos. Tudo o que era comum e incomum... num só reflexo.
Por trás daquele reflexo estava, enfim, o que
deveria observar. A chuva torrencial escorria pela vidraça, dando um ar
psicodélico ao mundo lá dentro. Um raio fez cair a energia em boa parte do
bairro... e foi quando pôde ver, finalmente, a verdadeira essência daquela cena
bucólica. Aproximou-se para não perder nada, enquanto via o seu tatear no
escuro, a procura por fósforos e – finalmente! – o encontro com o passado nas
cartas. Não sem antes aquele chute de desabafo no objeto inerte. Era preciso,
de qualquer forma. Já havia sofrido demais...
“O caminho é um só.”
O mestre dizia. Qual caminho seria aquele? O de
tatear no escuro, de chutar caixas esquecidas, de enfrentar passados não
revelados?... Precisava entender para que todos entendessem. Era preciso
enfrentar o escuro agora. Alinhar-se com o escuro dentro. Somente por entre
clarões de raios era possível ver, por milésimos de segundo, as expressões
atrás da vidraça.
A caixa foi aberta e as cartas, finalmente, relidas.
E reliam ao mesmo tempo. O mundo dentro e o mundo fora. A carta e a cartilha. Depois
de todos aqueles anos humanos quase perdidos, pôde sentir brotar em si a
lágrima da gratidão... Apesar de não ser fácil ouvir aquelas palavras todas de
novo.
Pousou a mão sobre o peito e fechou os olhos
enquanto liam. Choraram. E ele pôde, finalmente, entender.
“Talvez ele se referisse ao único caminho a
seguir... seguir em frente. Caminhar, apenas. Sabendo para onde, sem deixar de
caminhar. O caminho era um só: decidir continuar caminhando no caminho
escolhido. Um caminho, apenas.”
Ouviu o ranger do trinco da janela. A chuva
amansou, curvando-se ante a atitude corajosa de entregar-se. Da carta escrita
um avião foi feito para finalmente alçar voo.
Abriu os braços na esperança de recolher mais
aquela carta... e a acolheu tão logo foi jogada noite adentro pela janela
afora. Sentou-se no parapeito e leu sem se dar conta dos anos humanos.
*
Caro Cupido,
Muito tempo se passou desde a última carta que
lhe escrevi. Cartas de uma escrita impecável e de escassez de sentimento. Não
me preocuparei com a simetria agora... apenas com a empatia. Parei de escrever
talvez por ter deixado de acreditar há tanto tempo, por pensar nestes anos
todos que finalmente havia recebido o que pedi. Mas a verdade, meu querido
cupido, é que me iludi por acreditar que o amor é o algo facilmente alcançável
com uma simples conquista. Esqueci-me de que é preciso enfrentar a escuridão,
levantar-se todos os dias com a inocência para poder enxergar. Achava que não
precisava. Achava que era coisa de livro de autoajuda, de psicologia barata, daquela
velha cartilha mofada no fundo do armário.
(...)
Não queria ter sofrido menos... o sofrimento
sempre me fez crescer. É verdade que a descoberta só vem quando somos capazes
de assimilá-la. Antes não teria... não teria como. Pensava só em mim, mesmo
escrevendo sobre o amor... sobre o amor que eu julgava ter, o amor que julgava
conhecer.
(...)
Não é doce acordar do sonho. Não é belo ter que
enfrentar o que não saiu como planejamos. Ah, quisera eu não ter esse
conhecimento tão piegas e pífio sobre o meu próprio passado! Achando-me o ser
mais informado do mundo, engrandecendo meu próprio ego e me esquecendo do
principal: olhar o outro. Tentando achar palavras que justificassem o amor que julgava
ter por mim... e não tinha. Procurando sentido nas cartas de amor cuidadosas
que escrevia. Mas não havia amor... nem pelo que estava fora, nem pelo que estava
dentro. Tinha apenas um sonho, e nenhuma vontade de abrir-me para que ele
realmente acontecesse. Como uma criança mimada, quis apenas suprir carências. E
é neste ponto, Cupido, que eu lhe confesso: sua ajuda me fez ver que o amor
acontece apenas onde é bem-vindo.
*
sábado, 2 de novembro de 2013
Segundo
Tropeçou
grosseiramente, em meio ao breu, no objeto cúbico mal posicionado atrás da
porta do quarto dos fundos. A topada certeira acometeu o dedo mindinho, o que
fez com que soltasse um palavrão de desabafo - como se maldizer o ocorrido
fosse amenizar a dor.
Já não
tinha mais a quem culpar pela desorganização da casa ou por caixas pesadas esquecidas
atrás da porta do lugar onde estavam vela e fósforos. Tão pouco maldizer o
passado faria o sofrimento ir embora. Um passado não tão próximo como a topada
no dedo mindinho, nem tão distante quanto o início daquele grande amor. Um amor
que durara anos, em meio a palavras de amor e palavrões.
Por
sorte, encontrou uma lanterna ao invés da vela e dos fósforos. A lanterna
ajudaria a manter o foco no que fora ali fazer. Por certo a vela teria trazido
memórias que preferia não acessar. A tempestade desabava sobre a cidade no
início da noite, e não era mais possível ouvir nada além dos trovões, do som da
água caindo e os próprios pensamentos.
Após um
ano completo, pensava já ter se livrado da dor. Aquele era um mundo no qual se
cobrava força, coragem e paz de espírito, apesar dos pesares. Sempre fora uma
figura forte, com passos firmes que nunca tropeçavam. Naquela noite, tropeçou
desajeitadamente na maldita caixa atrás da porta. Lembrou-se, com certo
sofrimento, de que deixara pegadas marcadas demais sobre aquela história. Como
se tivesse pisado sobre seus sonhos, sobre os sonhos dos dois e sobre a
possibilidade de realização de qualquer deles. Era um fardo pesado demais para
carregar, mas o mundo lhe cobrava a resiliência. Não foi fácil, mas em apenas
três meses era como se aquele grande amor nunca tivesse acontecido. “Outros
amores virão”, era a frase que ouvia repetidamente daquele mundo que achava que
tudo sabia. Não queria outros amores... Queria simplesmente amar-se naquele
momento.
Não
pensava que a culpa fosse totalmente sua. Não era. Talvez não houvesse culpa.
Talvez houvesse apenas cobranças demais e amor de menos. Não, o amor era
suficiente... mas cada um fora incapaz de deixar de olhar para as próprias
pegadas e entender que, na verdade, o importante era apenas caminhar juntos.
Sacudiu
a cabeça e chutou a caixa, como se para espantar aqueles pensamentos. Com o
choque, a lanterna soltou-se da mão, caindo com seu foco sobre a caixa. Teve de
abaixar-se para pegá-la, ficando cara a cara com o objeto. A tempestade ainda
abafava todos os sons da cidade, e pôde ouvir claramente dentro de si: Abra-a.
Como se uma enxurrada estivesse prestes a carregar tudo, agarrou-se à caixa
como se disso dependesse sua sobrevivência. Abriu-a em apenas um segundo...
Em um
segundo, quilos de passado revelaram-se ante seus olhos. Algo que havia sido
esquecido há tanto tempo, e que remetia ao início de todos os seus medos, seus
anseios e seus desejos. A caixa, estranhamente esquecida atrás de uma porta,
estava repleta de cartas escritas há muitos anos.
Não se
lembrava de ter escrito tantas cartas naqueles anos de relacionamento. Perguntou-se
por que elas não foram divididas na separação, ou sumariamente queimadas em
latas de tinta – a mesma tinta usada para cobrir escritos de amor nas paredes. Não
havia razão para estarem ali, intactas, convictas, resolutas. Depois de tantos
anos de pegadas sobre sonhos, havia deixado aqueles para trás. A curiosidade
foi maior do que o medo de revirar aquele baú metafórico de memórias. Vasculhou
as cartas com o cuidado de quem manuseia um tesouro.
Não
eram cartas de amor, como esperava. Eram cartas que descreviam todos os
sentimentos que tivera em cada um dos seus relacionamentos. Cartas endereçadas a
alguém em quem acreditava, revelando segredos que nunca poderiam ser remetidos.
Uma carta toda primeira segunda-feira de cada mês... Reveladas em um segundo.
A
tempestade fora se tornou tempestade dentro. A enxurrada de sentimentos levou
embora a falsa pretensão de força e coragem. Nunca em sua vida pensou conseguir
tamanha sinceridade consigo. Chorou lágrimas de anos em que brigara com as
próprias atitudes, em que evitara entrar em contato com a própria dor por meio
de alguns palavrões falados ao vento e outros tantos chutes no desconhecido.
A água
do céu tornou-se música, enquanto sua sinfonia ia aos poucos cessando em
pianíssimo. A água do coração ainda jorrava através dos olhos, lavando
expectativas não cumpridas. Ao dobrar e envelopar a última carta, olhou pela
janela e sorriu. Correu como uma criança travessa à busca de papel e caneta, e
escreveu em quase um segundo sob o foco da lanterna, sem se dar conta de que a
cidade já se iluminava.
Escreveu
e assinou. E pensou: “Esta será remetida.”
E
dobrando-a em forma de avião, fez com que seus sonhos alçassem voo pela janela.
domingo, 29 de setembro de 2013
"No início era o verbo"...
Esperou com olhos arregalados que a descoberta
começasse.
Há tempos vinha esperando por aquele momento. Arrepiava-se
ante o vislumbre do mistério, do desvelar-se de tudo que fora guardado detrás
de sombras... e de luz.
Respirou por três vezes e tentou se acalmar. Do
contrário sua ansiedade o faria perder alguma palavra, algum momento. O mestre ia
falar...
- Podemos começar?
- Claro, claro... – disse, nervoso, ajeitando
sua posição.
- Certo. Já sabes o que mais deves saber?
- O que mais? – ficou confuso. – Não posso saber
mais, pois ainda nada sei. O que mais devo saber?
- Mais do que sabes, bem se vê!... Quis dizer: já
sabes o que de mais importante deves saber?
- Ah, sim! – agora tudo fazia sentido. – Devo
saber do que se trata a essência do Amor.
O mestre manteve-se em silêncio. Olhou-o
calmamente no fundo dos olhos, como se quisesse dali arrancar a petulância de
um aprendiz tão cheio de si. Em seguida, uma gargalhada atingiu seus ouvidos de
iniciante, vinda da garganta do mestre sempre sisudo. De fato, a cena mais
grotesca que já vira na vida. Ajeitou, mais uma vez, sua posição. Respirou por
mais três vezes. Do contrário, teria gargalhado junto... ou chorado ante o
terror daquela carranca.
O mestre ia falar...
- Meu caro, não há nada mais custoso do que compreender
a verdadeira essência do Amor. Pois ele, em si, é dúbio, incoerente, insensato
e por vezes inóspito.
- Como assim?... Não seria o Amor o sentimento
mais sublime que existe?
O mestre não discordou ou tão pouco concordou.
- Ficará mais fácil entender se elevarmos o Amor
ao status de ação: AMAR. O Amor, per se, não passa de um sentimento estanque,
estático. Um estado que na verdade não existe. A ilusão de estar num estado
de Amar. Em verbo movimenta-se, expande-se, extrai de um momento a
continuidade.
Só conseguia anotar. Prestar atenção sempre fora
seu forte... Mas aquilo precisava anotar, para nunca mais esquecer.
- Mestre, entendo quando fala do Amor como
verbo, como ação. Nossa função seria, portanto, manter o Amor como ação, isto é,
em perfeito movimento de Amar?
O mestre cruzou os braços em frente ao peito,
satisfeito.
- Vejo que já entendeste tua primeira lição: Manter
o Amor em perfeito movimento de Amar. E este perfeito movimento requer...
Interrompeu a frase no meio. Pela sua expressão,
esperava que completasse a frase.
- Requer... Ahm... Requer...
Os braços cruzados de satisfação desfizeram-se
em um clamor aos céus.
- Tempo, meu caro, tempo!... Mas não somente o
tempo, pois ele é capaz de desgastar o Amor quando esse ainda não é verbo. A
continuidade do perfeito movimento requer a flexão de vários outros verbos:
doar-se, entregar-se, apegar-se, expressar-se... compreender, aprender,
ceder... falar, calar... ouvir... E, meu predileto: ABRIR.
- Abrir, mestre?
- Sim, abrir. Amar se trata, principalmente, de
abertura. Abrir-se para mudanças, abrir sua vida para outra pessoa, abrir mão
do próprio ego. Ninguém é capaz de Amar e receber os benefícios do perfeito
movimento se não for capaz de ABRIR seus pensamentos, sua alma e seu coração
para o novo, para o intangível e inseguro, para o escuso, o imperfeito e o
obscuro.
- Não tinha ideia de como Amar poderia ser tão
luminoso... E ao mesmo tempo tão sombrio.
- É certo que é preciso haver luz para que haja
sombra... Mas nos esquecemos de que é preciso conhecer a sombra para
entendermos a luz.
Suspirou.
Pensou por alguns instantes.
O mestre não interferiu. Esperou que ele
falasse.
- Mestre... – disse ele, um pouco triste. – Se Amar
é mesmo tudo isso... Poucas pessoas amam de verdade.
O mestre sorriu.
- Eis nossa grande função, meu caro. Se
pretendes contribuir para que o perfeito movimento nunca cesse... Assegures-te
de que todos os fatores estejam presentes quando desferires teu golpe certeiro.
Tua chance é uma só, ainda que o Amor tenha várias chances. Não sejas frívolo
em tua pontaria. Do contrário, o mundo apenas ficará repleto de paixões sem
sentido.
Levantou-se convicto. Fez uma reverência ao
mestre.
Antes de sair, respirou por mais três vezes...
Do contrário, estremeceria em sua pontaria e encheria o mundo de paixões sem
sentido, nada mais.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
O Tempo e a Espera
Sentou-se à mesa mais
confortável que encontrou, perto da grande vitrine que dava para a rua. Era
costume seu – talvez pelos últimos... hum... dois anos, mais ou menos – sentar-se
em algum café da cidade aos finais de tarde, quando o mundo lá fora corria para
alcançar algo que não se sabia o que era. Talvez corresse atrás do tempo ou
para chegar antes, ou quem sabe ainda para adiar os acontecimentos. O motivo não
importava: o ritmo era frenético e, quase sempre, injustificável. Por que
correr se, em algum momento, todos chegarão onde querem?
O cansaço parecia ser o senhor
de toda aquela ansiedade. Olhos não se encontravam, mentes divagavam, e quando
um corpo tocava outro era por algum esbarrão pela falta de espaço para a
correria (atrás de algo que não se sabia o que era). Muitas vezes, não havia nem
tempo para pedir desculpas ou fazer um comentário simpático como “Ah, esta
correria!”. Não, cada qual continuava no próprio ritmo frenético.
Não participar daquela “normalidade”
forçada fora uma resolução sua. Por isso sentava-se quando todos corriam. Todas
as tardes adentrava um dos cafés da cidade, sentava-se perto da grande vitrine
que dava para a rua (quando não tinha vitrine, ficava ao lado da porta mesmo)
levando consigo um livro e um celular. Daqueles que traz tudo à disposição:
falar, escrever, navegar, escutar... ou ignorar, quando fosse o caso. Bastava
um clique num botão, e todo um mundo desaparecia. Um mundo onde as pessoas só
não corriam porque deviam ficar paradas fisicamente para usufruir dele.
Gostava de lidar com
coisas diferentes, mas intrinsecamente iguais. O livro e o celular, por
exemplo. Dois mundos, dois tempos. Gostava de revezar entre um e outro, brincar
de ir e vir de passado para presente, presente para passado, confortando-se por
não saber nada a respeito do futuro. Não tinha como saber quem seria a próxima
pessoa a passar por sua vitrine-tela ante seus olhos, não podia saber como
seriam seus filhos e netos (caso os tivesse), qual seria a próxima descoberta
da Ciência, ou se o seu vizinho de mesa espirraria às suas costas. Não tinha
controle sobre nada... A não ser sobre o livro e o celular. Ainda assim, eles
frequentemente lhe pregavam peças. O livro mais que o celular em termos de
personalidade. O celular mais que o livro em termos de temperamento.
- Desculpe pelo atraso.
É impossível transitar pela cidade neste horário... Demorei muito?
O café quente que trazia
com delicadeza à boca ardeu-lhe por todo o aparelho digestivo. Dera um enorme
gole devido ao susto. O líquido vazado da xícara despejada com força sobre o
pires ardeu sobre a madeira da mesa.
Não conseguiu falar
palavra durante alguns milésimos de segundo. Só teve tempo de recolher o livro
e o celular para que não ardessem também com o café.
Olhou em volta.
- Olha, acho que você se
enganou de pessoa.
O ser não identificado também
olhou em volta. Mas olhou mais para dentro de seus olhos.
- Eu nunca me engano.
Não gostou nada da petulância
daquele ser que era aparentemente contraditório: corria para não chegar atrasado
e logo em seguida sentava-se quando todos corriam. E sentava-se à mesa errada.
- Pra tudo existe uma
primeira vez... E esta é a primeira.
- Não, tenho certeza que
não me enganei. Você não estava à espera de alguém?
Entreabriu os lábios
para responder, mas conteve a voz na garganta. Estava? Nunca ficara sem
responder a nada de pronto. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua...
nunca uma dúvida no fundo da garganta.
- Eu...
- Então, fique feliz,
pois sua espera terminou. Não era o que você queria? Estou aqui...
- E o que você sabe
sobre a minha espera? Você, alguém que entra sem aviso, chega à minha mesa
sem permissão e ainda me faz perguntas que eu não sei responder?
O ser sorriu
sarcasticamente.
- Pra tudo existe uma
primeira vez, não é mesmo?
Ah, não, aquilo era de
tirar do sério!
- Alguém que, ainda por
cima, tem a petulância de usar minhas palavras contra mim! Quem é você, afinal?!
- Ora... Você ainda
pergunta?... Eu sou quem você estava esperando.
Suas sobrancelhas, curvadas
ante o ímpeto de levantar da cadeira e juntar-se, pela primeira vez, à correria
desenfreada de pessoas que não se conheciam, cederam ao relaxamento. A frase,
apesar de absurda, parecia fazer sentido. Há muito esperava, toda vez que se
sentava em um dos cafés da cidade aos finais de tarde, por alguém que acalmasse
sua pressa e reparasse em sua vigília voluntária. Pela primeira vez (quantas
vezes ainda repetiria essa expressão?), alguém olhava em seus olhos e dizia que
estava ali para cessar sua espera.
Olhou para o café
derramado sobre a mesa. Mirou o livro e o celular repousados sobre seu colo. Olhou
os olhos que não miravam nem para o café, nem para o livro ou para o celular.
Aqueles olhos miravam os seus.
- Por favor, sente-se.
Sentou-se bem de frente
na cadeira vazia, sem desviar o olhar.
- Há quanto tempo está
aqui?
- Mais ou menos uns dois
anos.
- Por que esperou tanto?
Por que consumir xícaras de café, páginas em papéis e em telas se, no fim,
apenas seu tempo foi consumido?
Engoliu a dúvida no
fundo da garganta, que agora virava tristeza.
- Não há
justificativa...
- A espera é justificada
quando aliada ao tempo. Lá fora alguns correm contra o tempo. Ignoram-no e
acabam se tornando escravos dele. Aqui dentro você tem todo o tempo do mundo...
E só espera.
O líquido amargo
acumulou-se no canto do olho.
- Quem é você?
- Acho que já respondi a
esta pergunta.
- Mas... Quem eu
esperava? Nem eu sei dizer...
- Esta pergunta só você
pode responder.
Chorou dois anos em dois
minutos. Secou os olhos por baixo dos óculos. Pegou o livro junto ao peito por
baixo do casaco e colocou o celular no bolso da calça. Levantou-se sem dizer nada.
- Vai embora?
- O tempo não volta
atrás... Já esperei o que tinha que esperar. Tenho tempo, por isso não vou correr.
Vou apenas justificar minha espera...
Seguiu para a porta.
- Espera!
De costas, esperou que
se aproximasse.
- O tempo é seu aliado
agora, lembra-se? Vou com você.
Sorriram. Chovia
torrencialmente.
Olharam nos olhos.
Deram as mãos.
E, sem abrir
guarda-chuva, seguiram pela rua em seu próprio ritmo.
domingo, 7 de julho de 2013
Sem Reserva
Eu
queria
Não
querer tanto...
Passar
do branco ao preto
Sem
esbarrar no cinzento,
Pular
para o riso logo após o pranto...
Eu
queria
Poder
encantar-me do desencanto,
Fazer
do tecido a tez da tessitura,
Poder
valer-me do que antes já valia,
Jogar-me
sem medir a altura,
Abrir-me
para além da abertura...
(Quem
sabe? Um dia...)
Eu
queria
Alçar
voos além do próprio céu,
Desnudar-me
da nudez coberta em véu,
Jorrar
de mim o fluido da aurora!
Fertilizar
a terra, amar sem reserva
E
nunca precisar ir embora!
-
Aquilo que dentro das mãos se conserva
Não
se desvela do passar do tempo...
Imundo,
abatido, moribundo...
Eis
enfim a sede de mundo!
Que
seca a garganta
E
resseca o peito
Quando
a pele se espanta
E
o toque não mais é perfeito...
Ah,
como eu queria poder tocar
Milhões
e milhões de vezes
Aquilo
que toca certeiro o teu coração!
Refém
da própria condição,
Referencio
minha súplica:
Faço
da dor manifestação pública
Para
chegar-lhe aos ouvidos como canção...
Ah,
como eu queria!
(Não
querer tanto...)
Brasília, 07 de julho de 2013
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