Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


sexta-feira, 15 de março de 2013

Needle & Thread - The Reign of Kindo


Já era muito mais de meia-noite e ele não conseguia dormir... por uma semana. Talvez mais. Não tinha parado para contar os dias... a única coisa que sabia é que sua vida tinha mudado completamente desde aquela noite.
    Aquela maldita noite... Aquela bendita, bendita noite...”
Apesar de tudo – a falta de descanso, a cama bagunçada pelo revirar incessante do corpo insone, até os olhos fundos que nunca tivera – ele sabia que a vida que antes tinha, antes daquela noite, não o satisfazia mais. Até mesmo aquela insônia aparentemente sem fim era mais aconchegante, mais benigna do que o arrastar-se daquela vida amorfa que levava.

Não parecia mais ele há muito tempo... antes. Procurava respostas nos lugares errados, com as pessoas erradas, em pernas misturadas a lençóis que nada tinham a ver com as sensações e os desejos que ele buscava. Não que ele não gostasse de transitar por aquele mundo que conhecia bem, e que fora seu companheiro durante tantos anos. Era um lugar confortável... Não se apegar, não se envolver, não precisar dizer muito mais que meias palavras, palavras meia-boca e meios-termos. Um copo de bebida, alguns trocos sobre a mesa, e quem sabe ele não passaria mais uma noite sozinho, nem mais uma noite vigiando o relógio.

Mas... não. Aquela era uma noite de segunda-feira. E já passava da meia-noite. E já se iam muitas noites inteiras... e mais uma noite e meia novamente perdida. Nem palavras, nem beijos... e apenas ele para bagunçar lençóis que não se misturavam há muito tempo a outras pernas que não as dele mesmo.

Levantou-se, debruçou-se sobre a janela. Deixou que a brisa noturna o fizesse recobrar a razão.

Não!”...

Mas já não parecia possível desligar-se. Pensou em vestir-se e sair, esquecer por um momento que teria de estar de pé para trabalhar em poucas horas. O céu ainda era feito de total breu, então não se preocupou tanto. Talvez ainda tivesse algum tempo... As estrelas nunca haviam lhe parecido tão imensas em sua distância, velando o sono dos humanos... E ele, acordado, revelava em sua mente apenas uma imagem. Já não era capaz de desprender-se de si mesmo, afogar-se naquela vida prática e um tanto vazia, que não fazia diferença, mas também não incomodava... As noites eram perdidas de uma forma muito mais divertida. Então, o que havia de errado naquilo tudo?... E...

O que há de errado comigo?”

A mesma pergunta que fazia todas as noites, há uma semana... Talvez mais. Depois de tanto tempo, depois de todo o automatismo confortável que construíra como uma carapaça para se proteger de sentir, para se proteger do que ele sabia que existia, mas não conhecia, depois de todo aquele trabalho de superficialidade... Veio aquela noite. Uma noite parecida com essa... com algumas estrelas no céu, vigiando o sono da maioria dos humanos, enquanto a lua nova sorria para aqueles que permaneciam lúcidos para observar seu espetáculo.

Ele se lembrava como se fosse aquela noite: seu vulto, ligeiramente prateado pelo sorriso no céu, não era diferente de nenhum outro que havia conhecido. Não era diferente de nenhum outro dos que ocupavam o restante das mesas. Um vulto sozinho, um vulto que não gesticulava, e que parecia apenas observar como ele mesmo fazia. Aproximou-se como um gato que caminha sobre o muro, para não perturbar a cena. Pensou em usar uma das suas frases de efeito, que sempre encaminhavam vultos para os seus lençóis sem muita dificuldade.

Não teve tempo de abrir a boca para falar meias palavras, em meios-termos. O vulto virou-se como se sentisse seu perfume no vento. Olhou com olhos felinos. Indicou a cadeira vazia. E ele não conseguiu falar mais nada, durante todo o restante da noite. Apenas ouviu e ouviu, como nunca fizera em toda sua vida. Viu, sem pressa e sem tédio, o horizonte clarear em tons azulados, enquanto a lua nova despedia-se com o mesmo sorriso. E o sorriso na terra era como o sorriso lunar. O vento sorria, as árvores sorriam, a cidade toda sorria... E ele sorriu por mais uma semana. Até aquela noite, em que já não dormia mais.
Lá fora começava a chover. Vigiou o relógio.

Merda de relógio. Só pode estar quebrado!”

E, com um golpe certeiro na parede branca, o relógio despedaçou-se. E ele vestiu o que achava ser um casaco, naquele escuro. E calçou o que achava ser um tênis.

Desceu as escadas, com pressa de esperar o elevador. Saiu correndo pelas ruas como um gato assustado, tropeçando em poças, desviando de postes, fugindo de cachorros vadios. Fez a pé o caminho de volta para o local do encontro. Trôpego, ingênuo, ansioso, arfante como nunca antes. Algo dentro dele estilhaçara como o relógio na parede, e o tempo já não existia. Não era mais meia-noite de uma segunda-feira... Era a hora do reencontro.

E lá estava o vulto que sorria. E ele pôde sorrir também, depois de uma semana... Talvez mais. Estava encharcado de chuva e felicidade. Um sentimento que o tirara do automatismo das frases de efeito, das meias palavras, beijos em meias-bocas e sexo em meios-termos. Não sabia ainda o que era aquilo, só sabia que não queria mais voltar atrás...

Sorriam um para o outro, em um tempo que não era um tempo... sobre promessas que não seriam feitas, e mesmo assim seriam cumpridas. Estava encharcado pela chuva, e foi como um bálsamo poder ouvir de novo, em silêncio, sem falar uma palavra sequer.

Na sua boca, só um sorriso que pretendia ser eterno. E a chuva sorria em toda a cidade. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

O desafio dos 21 dias: Uma introdução


Não é nenhum segredo que os sons em geral e a música em particular são capazes de elevar nossa consciência (ou nossa inconsciência) a patamares que por vezes desconhecemos. Nossa primeira troca com o mundo, quando ouvimos o ritmo incessante do coração de nossa mãe ainda dentro do útero, e – conforme acreditam alguns - também nossa última troca com as idas e vindas da experiência sobre a Terra.
Nosso sistema auditivo é altamente especializado e frágil, algumas de suas células nunca se renovam e é o único sentido que não pode ser anulado nem por nós mesmos. Mesmo sem estarmos conscientes dos sons à nossa volta estamos ouvindo, memorizando e, se esses mesmos sons forem associados a alguma emoção que mobilize de forma intensa nossa mente e nosso corpo, ficam guardados dentro de nós para sempre.
Como a mão de Pandora, que abre o baú das virtudes e agruras do ser humano, a música é capaz de revelar a nós mesmos todo o conteúdo de nossa memória, de nossa emoção esquecida, de acontecimentos marcados como tatuagem sobre nossos sentidos, suscitando sensações inúmeras que por vezes não conseguimos classificar. É através da música que uma cultura se revela, é nela que a história de um povo está hermeticamente guardada, intacta,  podendo ser acessada em qualquer lugar do espaço e do tempo.
A música é amplamente utilizada para levar e elevar a expressão humana – e, no nosso mundo nada ideal, também aplacá-la – trazendo em si a propriedade de ligar e desligar características dentro de nós, abrir ou fechar canais, sintonizar-nos com ondas vibratórias que perpassam cada uma de nossas células em seu próprio compasso. Indígenas, xamãs, sacerdotes, ditadores, mestres, pessoas comuns ou nada comuns... Todos fazem uso desse recurso, e sabem exatamente onde está o seu poder. A música é uma parte indissociável de nossa natureza humana e, como toda arte, não se encerra em si mesma.
A voz foi nosso primeiro instrumento musical. Fazemos sons para mostrar nossos sentimentos, nossas sensações, nossas impressões e repressões do mundo. Toda arte tem essa propriedade... e a arte do discurso e da música sempre estiveram intrinsecamente conectadas (os antigos bardos que o digam). A partir daí, quando passamos a registrar pela escrita o que nossa voz comunica, escrever, cantar e tocar formaram um grupo poderoso a que pouca coisa se compara no quesito expressão.
Vinte e um dias... Por que vinte e um dias? Toda arte tem sua métrica e sua forma, de maneira maravilhosamente não aleatória. Sabe-se que o universo como um todo é criado e recriado a partir de uma matemática própria, uma grafia de si mesmo que se repete em cada corpo celeste e em cada ser vivo. Muito já se falou a respeito dos números ímpares, não só por sua propriedade indivisível, mas por sua forma não dicotômica. Não temos neles nada que se anule nem se complete, e sim propriedades completas por si só, ainda que não isoladas... apenas únicas, especiais... enfim, ímpares. Algumas culturas acreditam serem necessários vinte e um dias para criar (ou recriar) um hábito, bem como para se desfazer dele. Nada mais apropriado quando falamos de música. Passar para além da estranheza, da não aceitação, da vontade de se desapegar e, por fim, deixar que a mágica se faça por si só. Aquela mesma mágica que anima o corpo e reanima a alma...
Com o respaldo da licença poética inofensiva, permitam-me fazer uma pequena correção: “No princípio, era a música.” A música da vida, sucessora do silêncio criativo, irmã da poesia.
No princípio, era a música... depois dela, o verbo. Pois que venha da música o verbo... Vinte e um dias de música e verbo. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Prosopoema


Hora de dar o próximo passo. Um passo à frente. E não falar mais a respeito...  Não falar. Sentir conforme a hora avança e o tempo já não cabe mais em si, em pulos dentro do peito... Ficar!

Só... somente aquela sensação insolente de não saber o momento. Aquela sensação prepotente de achar que tudo é possível... Invisível para os outros, indivisível para si mesmo.
Multiplicar sonhos... Ousando chamá-los risonhos, estranhos em formatos e tamanhos, abrindo-se em portas e janelas. E saber por quê... E saber para onde... E passar entre elas.

Ungir as próprias escolhas com a bênção da igualdade. E não deixar mais que predomine o vazio. Vadio, esse mundo onde não há mais integridade... Afastar-se do que é maligno, dos que são indignos, do passado espúrio repleto do infortúnio... Renascer, transcender... Não sou mais quem costumava ser. Por favor, não insista... Não é possível voltar atrás quando já não se olha com a mesma vista.

Medo... Agora te chamarei de arremedo. Arremedo de um sentimento sem sentido... Sendo expurgado de dentro, jorrando por lábios, olhos, ouvidos, mãos, sexo, pés e coração... São meus, e seus... Não! Portanto, não se intrometa! Meta-se com a meta na rua torta que escolheu... Lembre-se da sua memória que já se esqueceu.

Culpa... Não aceitarei mais desculpas! Apenas desapareça... Cresça no pensamento de quem a merece! Daqueles que não conseguem mais enxergar... E nem amar. Daqueles que são impuros e precisam da energia alheia para vivificar. Buracos negros roubam brilho de estrelas... Estreia absurda de quem não aprendeu a viver da própria natureza.

Não mudarei na essência por conta da estranheza. Minhas entranhas ainda clamam por algo maior... E não quero saber o que você acha melhor. Poupe-me de suas frases de efeito. Se quiser saber do que o universo é feito, comece do fim para o início, do avesso pelo inverso. Inverta o que conhece. Ouse falar do que estremece, do que arranha, do que arranca, do que é, mas não parece...

Não quero suas resoluções... Pois não são bem-resolvidas. É só o que você acha... Inflando os pulmões com o ar que é fumaça... E deveria ser som. E deveria ser luz. E deveria ser voz. E deveria ser cem... anos da passagem de um cometa... Cometendo um erro dentre milhões e milhões de acertos... Incertos.

Olho para o que foi e não me arrependo... só escolho esquecer. Aquecer o coração de outra forma. Acolho o que aprendi... Aceito o que já perdi. Busco mais... e menos. Mais de mim, menos do seu que não sou eu. Outro, enfim, de um fim de alguns segundos atrás. E não voltar...

Atrás... do que poderia ter sido, do que poderia ter dito, do que poderia ser meu... E não foi. Já se foi... Daqui... pra frente, só quem é rente ao coração... quem aceitar cantar junto a mesma canção. De resto... vibrar em fibras do infinito o que é antes do fim, em apenas uma palavra:

...SIM... 


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Poesia para a noite chuvosa



Um som cristalino perpassa meus ouvidos,
Como o tilintar de frágeis cristais...
Desavisada, afundada em meus pensamentos,
Afino meu coração com seus finos sons,
Soando em dós, não mais em dor...

Dons do cântico divino!
O tambor no peito se curva
À sinfonia clara e nada turva
De seu bálsamo benigno!
Limpando meu corpo, lavando a alma,
Minhas lágrimas salgadas se confundem
Com a doçura da sinfonia calma...

Lava, benévola chuva!
Leva contigo o que não mais serve,
Conserva em mim o lépido esplendor!
A visão em prismas do infinito
Plasmada nas cores da aliança...

Dança, ancestral bailarina!
Feliz daqueles que se entregam de peito aberto
Ao destino incerto que ensina...

Água da emoção que ferve,
Embala!
Água do pensamento que verte,
Resvala!
Água da ação que se despede,
Consagra!

Transforma em mim,
Chuva que guarda os segredos do princípio e do fim...
Transmuta o que não mais é transparente,
Clareia o que não mais é translúcido,
Acorda o que em mim permanece dormente!

Onipresente vertigem vertida do céu,
Apazígua as mágoas
E me cobre com a leveza do teu véu!
Para que minha mensagem de beleza,
Batendo em gotas cristalinas na janela acesa,
Ressoe como música em notas doces
No coração de quem em corpo não posso alcançar...

Que eu seja una com a chuva!
Água-mãe de todas as águas,
Dos mares, lagos, rios e oceanos,
Presença viva que viu todos os anos,
Lembra-me de quem sou
Quando respingar sobre minha face:
Para o que se é não há disfarce,
E não há máscara ou fantasia
Que não sucumba à verdade...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tão longe e tão perto... Alguns devaneios sobre os relacionamentos à distância.


“Ninguém entra na nossa vida por acaso.”
Quem de nós nunca ouviu essa frase? Arrisco dizer, sem medo de errar, que todos nós já a ouvimos - ou lemos – em algum momento da nossa vida, em nossa língua pátria ou não. Alguns podem ter ouvido ou lido com olhos e ouvidos completamente descrentes. Outros, com a crença de que várias coisas transcendem nossa compreensão, entendem-na como uma espécie de lei natural aplicável aos acontecimentos inexplicáveis – chamando-os de coincidência ou, mais apropriadamente, de sincronicidade.
Se for realmente verdade que ninguém entra em nossa vida por acaso, o que dizer dos acasos acontecidos no mundo virtual? E o que dizer então quando desses acasos – ou coincidências, ou sincronicidades – decorre o interesse por um alguém geralmente a quilômetros de distância, visto na maior parte das vezes detrás de uma tela em uma imagem em duas dimensões? E se nos deparamos preenchidos com sentimentos em dimensões antes não imaginadas por essa mesma imagem sem corpo, e nos percebemos comprometidos com um namoro à distância?... Deixemos a ideia do acaso de lado por agora, reservando-a talvez para algum outro texto, para pensarmos sobre esse assunto tão ou até mais misterioso do que a suposta “lei natural”.
“Namoro à distância?!” É possível ver narizes torcidos em toda parte quando esse assunto é lançado. Como é possível intimidade sem contato diário, sem presença, sem olhares, sem carinho? De fato, não é possível um relacionamento sem nenhum desses ingredientes se considerarmos que nele está envolvido, idealmente, o amor como sentimento. Mas pergunte para a maioria dos casais que mantêm um relacionamento à distância e ouvirá a resposta... É possível, sim. Se ambos estiverem dispostos a assumir as consequências que decorrem dessa decisão, seja o contato físico infrequente, o gasto financeiro com viagens para viabilizar o encontro, a tristeza de querer ver o outro todo dia e não poder. Tudo absolutamente contornável... Desde que haja, dos dois lados, a disponibilidade para lidar com tudo isso. E, obviamente, a certeza de que estar envolvido com aquela pessoa vale realmente todo o esforço.
O namoro à distância não é um privilégio do mundo pós-internet. Existem histórias de casais que se conheceram em algum momento e trocaram correspondências ou telefonemas por dias, meses e até anos a fio até que pudessem estar juntos. Se esses relacionamentos deram certo? Não é esse o ponto de discussão aqui. Afinal, se proximidade física fosse realmente o ingrediente determinante para o sucesso num relacionamento, não teríamos tantos casais pedindo o divórcio depois de anos morando sob o mesmo teto e dividindo a mesma pasta de dentes.
Sem querer, entramos em outro ponto chave: o sucesso de um relacionamento. Talvez os que não acreditem num namoro à distância tenham sua razão, no sentido de que a saudade e a impossibilidade de estar perto é um fator de sofrimento quando estamos envolvidos. A paixão pede por presença, por toque, por carícias, por luxúria, por tesão. É ótimo sentir tudo isso naquele frenesi das pupilas dilatadas e mãos frias do início de um relacionamento, quase como uma droga que se toma e não se quer mais largar. Já vi vários relacionamentos se desmantelando depois que o efeito dessa “droga” viciante tenha passado. O amor, o qual tantos juram sentir, transcende a necessidade da viagem química da paixão, que se torna apenas uma especiaria necessária, mas não imprescindível.
É fato que muitas pessoas não se adaptam à sensação incômoda da distância. Seja por acreditarem que aparecerão “pessoas mais interessantes” ou “tentações” muito mais poderosas do que aquela imagem sem muito apelo aos sentidos, seja por serem antiquadas, no sentido de achar que um relacionamento que não tem presença não é um relacionamento de verdade. Temos que concordar que se a pessoa da imagem em duas dimensões não despertou algo além da mera aparição por trás da tela, não faz o menor sentido se dedicar a um relacionamento que demande tanto do nosso esforço, tempo e dedicação. Mas se, pelo contrário, aquela for a pessoa que despertou em nós sentimentos antes não vividos, suscitou pensamentos do qual não fazíamos ideia, se foi alvo de um aperto no coração e da saudade de ouvir sua voz sem nenhum motivo... não há distância que justifique se desfazer de tudo isso.
É provável que a conexão intelectual, a identificação com princípios e compreensão de vida seja mais importante do que o convívio diário para algumas pessoas. Na juventude, quando somos mais imediatistas e eufóricos com a novidade, a impossibilidade de estar diariamente com o alvo do nosso desejo com certeza mina qualquer inclinação para o relacionamento; conforme criamos certo nível de distanciamento em relação a essas questões, ou quando amadurecemos e reavaliamos nossas prioridades, passamos a dar mais valor àquilo que nos aproxima da essência da outra pessoa, muito mais do que sair à noite, assistir a um filme juntos toda semana, passear de mãos dadas, fazer declarações ao pé do ouvido ou qualquer coisa do gênero. O mais fantástico é que quando isso acontece realmente entre duas pessoas maduras toma dimensões espiritualizadas, dotadas daquele algo que vai além do mero sair, assistir filme, dar as mãos, falar ao ouvido. E quando isso vem recheado de saudades... Pode se tornar quase a recriação do universo.
Não tenho intenção de defender um dos lados aqui. Uma experiência de relacionamento, seja ela à distância ou não, precisa de certo nível de intimidade e, principalmente, cumplicidade para poder acontecer. E, neste ponto, é fato que um relacionamento no qual não se convive diariamente com a outra pessoa, em suas virtudes e defeitos, tende a ter um nível muito maior de idealização, levando a imaginação a alçar voos muito além da realidade. Esse é o grande perigo de se viver um relacionamento que não existe de verdade, seja ele vivido por olhos nos olhos, seja pelas lentes frias de uma câmera.
Por muito tempo acreditei que para se conhecer uma pessoa de verdade era preciso pisar o mesmo chão, mas os últimos dois séculos da história da humanidade nos ensinaram a rever nossa noção de relacionamento e, principalmente, de relacionamento feliz. Dizer sim em frente a um juiz e deitar-se na mesma cama não é mais sinônimo de um relacionamento longevo, e muito menos de um relacionamento feliz.
Depois de ter sido casada, posso dizer que a frase que ouvi a vida inteira sem entender passou a fazer sentido: “Para se conhecer alguém é preciso comer, juntos, um quilo de sal.” Esse dito popular encerra não só a noção de tempo - pois não é possível comer um quilo de sal numa só refeição – como também a sabedoria a respeito do que é difícil de fazer sem nenhum outro recurso externo, contando apenas consigo mesmo e com o outro. Comer o sal significa provar do desgosto da vida, do que no início parece ser fácil de lidar, mas que com o tempo revela dificuldades profundas, desespero, amargura e a “seca” por dentro. Já ouvi muitas histórias de casamentos de algumas dezenas de anos que acabam em ruínas quando um problema maior se apresenta, e nem os anos de saídas, filmes, mãos dadas, frases ao ouvido, sexo, filhos e tudo que disso decorre foram capazes de manter aquela faísca inicial acesa.
Uma vez ouvi de uma pessoa muito sábia a seguinte frase: “A energia do universo não conhece espaço e tempo. O amor não reconhece relógio ou GPS, e por isso mesmo ele se apresenta em qualquer lugar ou tempo onde haja empatia.” Costumo dizer que o mundo é vasto demais – e hoje globalizado demais – para acharmos que a pessoa mais compatível conosco é aquela que mora a alguns quarteirões de nós.
O espírito não conhece barreiras, para aqueles que nele acreditam, e o mundo moderno nos deu ferramentas para extravasar nosso corpo físico. A saudade nos levou a inventar formas de estarmos perto: a cavalo, de avião, ao telefone, na frente da webcam, num pedaço de papel escrito, debaixo dos lençóis de uma cama ou tendo como testemunha o céu estrelado. As ondas do pensamento não conhecem limites, não são presas por fios ou redes sem fio. Se duas pessoas realmente quiserem, seu amor encontrará formas para que fiquem juntas...
Namoro à distância? Se você tiver disposição, e se aquela imagem em duas dimensões, a voz entrecortada por falhas na conexão, o olhar quase imperceptível pela luz inadequada, o cheiro que se sabe existir e que se faz força para imaginar ou lembrar, o toque que talvez encontre seu caminho em poucos segundos de presença é tudo o que suscita a complementação que você esperava e não encontrou nos olhares a poucos palmos de distância... Por que não?



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Insana Sampa ou SP 459

Enfim, cá estou eu

olhando pela janela secreta da minha alma.

O céu noturno,

antes negro profundo,

Acinzenta em tons iluminados.

Já não se vêem estrelas brilhando no alto...

Mas é no chão que cintilam

e bailam,

audaciosas,

no espelho do olhar.

A paisagem negra,

ora refletida,

não cessa em seu balé,

faz-me pensar:

Minha alma, em segredo,

suave, serena, completa,

sorri para o espetáculo

que anima meu desejo,

em sua magnitude repleta de altivez...

Cá estou eu,

pensando, admirando...

E me apaixonando mais uma vez.

São Paulo, 27 de março de 2008.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Fim ou Jioty Singh Pandey



Dia 21 de dezembro de 2012. O fim do mundo Maia. A data mobilizou adeptos de todas as crenças, religiões, pessoas de todas as nações, pátrias, tribos, raças, pensamentos e sentimentos. A previsão era de meteoros caindo do céu em chamas, maremotos, pragas, doenças, e também a formação de uma nova consciência de paz, amor e fraternidade entre os seres. Alguns acreditavam na mudança da energia, o início de um novo ciclo, da renovação das esperanças... A maioria ficou esperando acontecimentos apoteóticos no estilo hollywoodiano. Desses, alguns poucos construíram abrigos que resistiriam a quaisquer das intempéries climáticas; outros foram para alguma cidade onde não seriam atingidos pelas mesmas condições hipotéticas de mau tempo. Talvez um ou dois - como você e eu - apenas seguiram com suas vidas normais...
Ouvi vários suspiros aliviados e comentários esperançosos depois dessa data. De que a vida mudaria dali para frente, porque “o mundo não acabou”. Não acabou... Com efeitos especiais e grandes heróis intergalácticos, ou naves espaciais e um show de encerramento, como brincavam alguns. Realmente, não foi o fim do mundo... Mas de que mundo estamos falando?
Dia 16 de dezembro de 2012. Em algum lugar do outro lado do mundo - aquele mesmo mundo que acabaria apoteoticamente cinco dias mais tarde, na crença de muitos – via-se traços do fim. O início de um fim prematuro. Um fim não causado por meteoros, maremotos ou homenzinhos verdes; um fim causado por mãos masculinas contra um corpo feminino. Um corpo e uma alma que deveriam sofrer por terem enfrentado e olhado seus agressores nos olhos. Um corpo, uma alma e uma dor que deveria acontecer porque ela ousou se libertar, por milésimos de segundo, de uma cultura que a ensinou de que mulheres eram inferiores a homens, e que ela deveria sofrer por ter nascido mulher.
Jyoti Singh Pandey. Foi esse o nome revelado pelo pai, poucos dias depois de sua morte. Uma morte prematura e dilacerada, a morte por mãos masculinas contra seu corpo feminino. Tinha 23 anos, estudava medicina. Não era uma jovem mulher como tantas outras de sua cultura, e ao mesmo tempo tinha as mesmas dúvidas e o mesmo sonho de mudar sua condição. Sua sentença de morte foi ter nascido mulher em uma cultura machista e ter entrado num ônibus com seis homens em 16 de dezembro de 2012. Jyoti não era, naquele momento, um ser humano merecedor de respeito. Era um ser inferior, um ser que merecia ter seu corpo violentado, dilacerado e deixado à própria sorte por apenas um grave e odioso motivo: ser mulher. E não uma mulher comum... Uma mulher linda, educada, com uma inteligência provavelmente superior a de seus agressores, e com a coragem de olhá-los diretamente dentro da alma mesmo diante da morte.
Jyoti Singh Pandey não queria ser heroína, tão pouco mártir. Tinha sonhos, desejos, paixões, defeitos, qualidades e medos como qualquer outra mulher da sua idade. Talvez tivesse planos para os próximos anos. Planos interrompidos por mãos masculinas contra um corpo feminino. Seu silêncio mortal falou na voz de milhares de outras mulheres, tanto as que viveram para fazer dela a heroína e mártir que nunca quis ser, quanto para dar voz a tantas outras mulheres mortas da mesma forma brutal e covarde.
Dia 28 de dezembro de 2012. O fim do mundo de Jyoti Singh Pandey, e o início de um novo ciclo para algumas mulheres do mundo que não acabara sete dias antes. Para mim, mais um ano de vida. Para milhares de mulheres, a possibilidade de uma vida que nunca teriam se não fosse a morte da mulher de 23 anos, indiana, linda, educada, inteligente e estudante de medicina, cujo nome era Jyoti Singh Pandey. Um nome que ficará na memória de tantas mulheres de seu país e do mundo.
Foram necessários nove dias para que eu conseguisse sentir reverberar dentro de mim - mulher, 31 anos, mãe, atriz, escritora, cheia de sonhos, medos e planos para o futuro de um mundo que não acabou – a dor pela perda prematura de Jyoti Singh Pandey, uma mulher que não conheci e não teria conhecido, mas que estava conectada a mim pelo simples fato de ser mulher. Pelo simples fato de ter sonhos, planos, medos e dúvidas como todas e todos nós. Por ter sido um ser humano, e por não ter sido tratada como tal pelas mãos masculinas de seis homens.
O mundo não acabou... Para mim, para você. O mundo acabou para Jyoti Singh Pandey, indiana de 23 anos. O mundo acabou para tantas outras mulheres assassinadas e desrespeitadas. O mundo acaba para tantas crianças violentadas. O mundo acaba para tantas mulheres mortas pelo simples fato de serem mulheres. O mundo acaba para as famílias que perdem suas amadas mães, irmãs, filhas, esposas. O mundo acaba...
O mundo onde o mundo de mulheres indefesas acaba para sempre...
Esse, sim, deveria acabar.