Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

DOIS (DOIS)


Ela resolve mesmo ir embora, depois de mais cinco, dez minutos de espera. Sai no meio da chuva correndo sem se dar conta de que, do outro lado da rua, ele esperava no carro. Um estrondoso trovão fez apagarem-se as luzes de parte da cidade. Ela então percebe a luz dos faróis de um carro agora posicionados em sua direção.
Ele para o carro ao lado dela e a olha pelo vidro embaçado. Ele limpa o vidro com uma das mãos. Eles se reconhecem. Ela queria. Ele queria. Dois corpos e dois corações. Vibrando com uma resposta.
Mas... Ela segue seu caminho. Ele desce então do carro, sentindo o vento e a chuva a impor o silêncio. Apenas uma palavra:

- Espera!

Ele ofega de paixão. Dentro dela algo explodia, e ela sabia que era bom. Volta-se em direção ao seu destino. Para nunca mais voltar atrás.
A chuva ensopa os corpos, selando as intenções naquele momento. Não mais a espera, nem o silêncio. A chuva era a testemunha.
Corações se unem. Ela queria. Ele queria. Já haviam decidido. Nunca se esqueceram do gosto, do calor, do toque, do amor de poucos dias antes. De todos os dias de antes. E de todos os dias de depois.
Beijam-se sob a chuva.
O vento soprou forte entrelaçando ainda mais as emoções. Os deuses reconheciam sua criação...


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PREFÁCIO


Essa semana me peguei pensando sobre o porquê de os relacionamentos de hoje serem aparentemente mais curtos do que os de antigamente. Conversei com algumas pessoas, colhi alguns relatos para formar uma opinião mais firme a respeito. Foi um trabalho de uma escritora de coletar informações, sem ao menos que me desse conta disso enquanto o fazia. Foi uma experiência, no mínimo, interessante.
Cheguei à conclusão que, ao contrário do que algumas pessoas mais velhas – saudosas de sua época – dizem, não estamos na “Era da separação”, ou mesmo que estejamos perdendo a noção do que é um relacionamento. A verdade é que o ser humano nunca teve essa noção...
Antigamente, os casamentos eram baseados em status social, segurança material, perpetuação da família e transferência de bens. É óbvio que não excluo o amor desse contexto. Muitos dos casais se amavam, felizmente. Não vivi antes dos anos 80 (quando a liberação sexual já estava mais do que consolidada), mas não é preciso pensar muito para deduzir que a maioria dos casamentos não era assim tão baseada em amor. A segurança, principalmente, falava mais alto. Com o tempo, o comodismo camuflava-se nessa segurança. E as pessoas ficavam cada vez mais infelizes...
Como disse um amigo meu, hoje as pessoas estão revendo sua noção do que é relacionamento. Ou, pelo menos, tentando criar uma. A segurança material, principalmente para as mulheres, não é mais algo procurado nos relacionamentos. Nem mesmo status social. Assim, as pessoas estão tendo que lidar com outros aspectos da convivência diária. Já não há desculpas para ficar ou para não ficar dentro de uma relação. Mas, é bem verdade que estamos sambando e perdendo o rebolado para lidar com o feio, o imperfeito, o absurdo de um relacionamento. E ainda transferimos... Não bens, mas conteúdos nossos para o outro, como se o outro tivesse que nos completar, nos satisfazer, nos aceitar, nos entender...
Talvez não estejamos na “Era da separação”, mas na “Era do consumismo." Somos compelidos, desde pequenos, a pensar em nós mesmos. A pensar em vencer na vida, conseguir um bom emprego para poder consumir coisas... E pessoas. Ao contrário do que pensamos, não somos mais bem-resolvidos com a ideia do “casar-se e separar”. Não somos uma geração de pessoas que sabem lidar com a perda, com o desapego. Pelo contrário. Somos uma geração de pessoas que aprendeu a lidar com o mundo como se ele tivesse que nos servir, como se as pessoas tivessem que nos servir. E, se não servirem, existem milhões de outras, prontas para consumo.
Essa semana a natureza também me presenteou com uma afonia, além dos “belíssimos” pensamentos. Vi-me, instantaneamente, mergulhada no silêncio. Nos meus pensamentos. Nos meus sentimentos. Percebi que também somos compelidos a “consumir” as palavras, sem prestar atenção ao que falamos, ao que ouvimos, ao que pensamos, ao que vivemos. Ficamos no automático, ligados a um GPS. Como se, assim, fôssemos saber qual caminho trilhar...
E, para os que ficaram se perguntando a respeito... Eu ainda acredito no amor. Ah, e como acredito!... Exemplo disso são as “historinhas” escritas abaixo. Tenho dois finais reservados, mas gostaria de ouvir a opinião dos leitores. Afinal de contas, sou uma escritora democrática, e adoro criar seres pensantes... E sensíveis. 

ELA


“Ele me pediu para esperar... E estou esperando. Esperar foi o que eu fiz a vida inteira. Esperar para nascer, esperar para crescer, esperar pelo amor que sempre quis... E esperar que a chuva amansasse para poder sair do carro e atravessar a rua, até chegar ao local combinado. O tempo passa tão devagar quando estou esperando por ele! Mas o tempo de ficar sozinha sem a perspectiva de sua vinda é muito, muito mais longo...

(...)

O ruim é não saber ao certo quando esta espera chegará ao fim... Quando poderemos finalmente ficar juntos. Por quanto tempo já estou sentada aqui esperando?... Veja aquela senhora sentada sozinha na mesa ao lado. Será que ela também esperou, como eu? Será que ainda espera?

(...)

A espera, apesar de necessária, me amedronta. Como se eu não fosse me livrar dela, ou como se ela fosse me assombrar quando eu não tiver mais nada a fazer...

(...)

As pessoas passam por mim, provavelmente se perguntando o que faço aqui sentada esse tempo todo. Ninguém vem mais à minha mesa me perguntar o que eu quero. Talvez porque esteja estampado na minha cara o que eu realmente quero... Eu quero que essa espera acabe!... Afinal, onde ele está?!

(...)

Ele me pediu também para ter calma. Mas... Como ter calma quando o sentimento lateja por dentro?! Quando a vontade de jogar-se de peito aberto é maior do que o medo da rejeição que queima minhas entranhas?! Já fui rejeitada algumas vezes. Já chorei por ser abandonada. Chorei até por não querer mais chorar... Mas o choro de não saber ao certo qual será a resolução desse impasse é muito, muito mais sofrido. O choro de pensar que talvez ele não sinta o que eu sinto... Pode ser que ele não saiba o que fazer com o sentimento...

(...)

Eu ainda tenho medo da rejeição. Será que ficar sozinha não seria melhor do que ficar nessa angústia de esperar? Essa angústia de ter que abrir mão daquilo que é mais importante, abrir mão do que acredito e tenho como princípio para ficar com outra pessoa? Será que vale mesmo a pena?

(...)

A espera me enche de dúvidas. E ficar sentada sozinha, sem ter com quem falar me faz pensar. E eu não gosto de pensar demais! Quando estou com alguma coisa pendente, alguma coisa me incomodando, procuro alguém para conversar. Ora, e não é o mais provável? E o mais certo?! Falar a respeito resolve as coisas. E eu queria que ele estivesse aqui para podermos conversar!  Ele sempre fica com aquela cara de que não está entendendo, de que não está a fim de falar nada e, no fim, eu fico falando sozinha. Como estou aqui hoje, falando sozinha em pensamento comigo mesma.

(...)

Os homens dizem que as mulheres querem sempre controlar tudo, que agimos como donas da razão e que somos obcecadas por aquilo que nos permita prever o futuro. Realmente, nós mulheres queremos saber o que acontecerá, e nos colocamos sempre à frente em qualquer ação... E também na reação, obviamente, porque geralmente os homens não reagem! Pelo menos, não parecem reagir. Isso, ou o tempo deles passa num compasso mais lento que o nosso... Talvez o tempo dele seja tão mais lento, que agora o seu relógio marca a hora do nosso encontro...

(...)

A verdade é que não somos controladoras. Somos ansiosas. E por isso acabamos, algumas vezes, enfiando os pés pelas mãos. Agindo sem pensar. Falando o que não deveríamos... Algumas, que já passaram por uma relação conturbada antes (talvez a maioria de nós), agem de forma reativa para proteger-se, para não sofrer o mesmo de novo. E acabam sendo injustas. E acabam morrendo pela boca, perdendo-se pela própria língua, ficando, por fim, sem língua, sem boca, sem beijos, sem olhares... Apenas um aperto de mão frio e uma velha amiga... A espera...

(...)

Aquela senhora ainda está aqui, ao lado, sozinha. Vou chamá-la para conversar. Claro! Assim pararíamos de pensar e dividiríamos nossos problemas, enquanto esperamos. Não... Veja, ela está se levantando. Será que cansou de esperar? Ou será que tem alguém esperando por ela lá fora?...

(...)

Sabe do que mais? Vou me levantar e ir embora também. Afinal, do que vale essa espera enorme se não há mais nada para dizer? Se ele vai chegar e não vai falar nada? Se eu vou ficar pensando sozinha, mesmo com ele sentado na minha frente? Se eu vou sempre fazer esse monólogo interno virar externo na frente dele?... Meu corpo não me responde, quer esperar mais. Não quero ir embora. Ele pediu para esperar, e me pediu calma. E estou esperando. E estou calma... Quero ter calma, fazer diferente... Ou porei tudo a perder...”


ELE


“Eu pedi a ela para esperar. Não sei se está esperando... ‘Calma’, foi o que eu disse. Mas será que ela entendeu que, o que eu realmente queria, era um tempo para pensar? Um tempo para sentir de novo a vida com o coração leve, com os olhos secos, com a alma calma? Calma... Eu já nem sei o que é essa palavra. E agora estou aqui, rodando de carro pela cidade como se não soubesse o endereço do local do nosso encontro. Claro que sei, mas minha mente se recusa a lembrar! Preciso de mais tempo...

(...)

Já passei por esta rua?... Sinto como se estivesse rodando em círculos. Com este carro, na minha vida... E ainda não estou calmo. Melhor desligar o rádio, aproveitar o silêncio... Daqui a pouco o silêncio será apenas uma lembrança. Ambos falando, ambos ouvindo, mas não dizendo nem escutando nada...

(...)

Talvez hoje eu faça diferente. Talvez fale o que estou sentindo, diga que a amo, que a quero para sempre... Quantas vezes será que eu disse isso?... Será que alguma vez eu disse... Para mim mesmo? Eu direi, e então fecharemos os olhos e nos beijaremos. E não precisaremos dizer mais nada. De novo o silêncio... Esse amigo que me sobra quando nada mais resta...

(...)

Não quero o silêncio de ser solitário. Quero o silêncio de escutar sussurros, de ouvir a respiração ofegante, de sentir o coração batendo... O silêncio de perceber detalhes. O silêncio de vê-la crescer como a mulher que vejo, de fazê-la saber através de gestos... Por que tantas palavras? Por que tantos pensamentos?...

(...)

As mulheres dizem que pensamos demais e não agimos. Mas somente não agimos do jeito que elas querem. E, quando pensamos em agir, ouvimos algo como: ‘você vai fazer isso mesmo?’, ou ‘quando é que você vai fazer isso?’... Cobranças. Os homens não lidam bem com cobranças sobre sentimentos. Se alguém se adianta em fazer algo, e por vezes faz até melhor, porque nos preocuparíamos em fazer? Elas dizem que não fazemos nada, mas a verdade é que não sobra nada por fazer.

(...)

A verdade é que, por mais que sejamos racionais, sentimos tudo. Sofremos como elas. Talvez até mais. Nossos pensamentos são cheios de emoção. Se é verdade que homens e mulheres têm dentro de si características do sexo oposto, no sofrimento as mulheres racionalizam e os homens sentimentalizam. Os homens calam e as mulheres falam, pois o sentimento é vivido no silêncio e a mente manifesta-se no ruído.

(...)

O semáforo abriu. O silêncio me fez recobrar a razão. Já sei onde estou... Por que não liguei o GPS?... O local é logo ali. Ainda tenho um tempo, pelo meu relógio... Será que ela está lá me esperando?...

(...)

Não é possível, acho que meu relógio está com a bateria fraca. O ponteiro está andando tão devagar... Ainda não liguei o GPS... Estou atrasado!... Será que vou até lá? Talvez ela já tenha ido embora... Ainda me pergunto se é o que quero. Dessa vez pode ser decisivo. Pode ser a última vez que eu aproveite esse silêncio benigno... Espero que ela esteja me esperando, e que nós possamos resolver as coisas. O impasse massacra o silêncio, impede a voz de sair... Vou sair do carro.

(...)

Ainda está chovendo. O vidro está embaçado, mas posso ver. Lá está ela. Será ela?... Está se levantando. É ela! Preciso me apressar e entrar logo por aquela porta. Chega de adiar, meu caro. A hora é agora... Maldito relógio!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

MONÓLOGO II - Interno

Após o susto,
O pulso, o impulso...
A mente para.
Observa. Analisa.
Revisa e Espera.
Assombra e Desespera
Ao ver o coração correr indômito,
Esgueirando-se incógnita pelo incômodo,
Abrindo, uma a uma, as portas da emoção!
A mente, aflita,
Enche-se de razão
E grita:
- Não!
Tudo estava calmo e confortável
Neste espaço miserável do conter-se!
E agora, contorces-te para desenredar
Uma alma torta?!
- Nada mais importa!
Grita o coração, destemido.
- Tudo que havia sido mentido,
Será agora desmedido!
Dismórfico! Filosófico! Heroico!
Nada tema, mente inerte.
Tu pensas no por que das coisas,
Mas, quando erras,
É de mim que o choro verte.
Nessa hora, tuas equações falam de canções,
Teu domínio do raciocínio perde-se nas paixões!
Ora, quem há de saber ao certo?
Se não se pode somente esperar
E deixar o momento passar,
Nem jogar-se de peito aberto
Ao abismo do lirismo?
Há que se ouvir a alma!
Ela pulsa? Ela arde?
Ela, repulsa? Ela, em alarde?
Coração e mente...
Um afoito e outra dormente,
Nem sempre sabem que escolha fazer.
Mas a alma,
Essa pura mistura de razão e emoção,
Se fala ao profundo do ser
Com afirmações, e não perguntas...
Por que não confiar?
A chuva goteja sobre a terra,
Mas uma hora vira mar!
E se não virar?...
Vire-se para o lado e sonhe!
Espie em mente,
Inspire em coração!
Assim não há como errar...

Brasília, 08 de outubro de 2012. 


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

MONÓLOGO I

Já me acostumei
A ser uma, somente,
E ao mesmo tempo tantas...
Mudar com o contexto.
Servir a tantos sem nenhum pretexto!
Encerrar-me como semente
Plantada no rastro do vivido...
Zunir ao pé do ouvido –
Direito - e direto naquela direção,
Como a lança que corta o som
E acerta o alvo abrindo-se em pedaços!
Lanço-me sem medo.
Já me acostumei...
A ocupar mínimos espaços,
Propagar-me nas entrelinhas.
Alinhavo a memória como ninguém!
Sou flecha e sou fogo corando a face
Quando já não há mais nada a saber.
Muito a viver em milhões de sonhos,
Mesmo os estranhos e medonhos,
Aqueles que evitamos tocar...
Entorno o cálice do não dito!
Num momento benévolo ou maldito
Quando o som cala-se ante ao vibrar!
Sou flecha e sou fogo corando a face...
Sonho ardendo em brasa,
Rápido como raio
Ao raiar do dia!
Se me pedir, não saio.
Peço perdão
Quando não há mais nada a dizer...
Viver para mim não é fácil.
Sou indócil, insolente.
Entorno o cálice do não visto!
Do não quisto...
Daquilo que me faz dormente.
Não preciso provar nada!
Nem que a dor seu corpo invada
Quando minha voz ouvir!
Sou flecha e sou fogo
Ardendo em brasa...
Sonho corando a face!
Duas pontas em enlace.
Tudo que está ao alcance
De um gesto.
Sou o avesso do inverso,
Uma e tantas...
Almejada, mas não amada.
Visada, mas não amada.
Por vezes desalmada.
Assim sou...
Já me acostumei.
Meu nome?
...
Meu nome é VERDADE.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Mar


Após o sopro, o susto, o impulso,
A palavra:
Paciência!...
Amores se escrevem por linhas tortas,
Em labirintos com portas,
Em noites sonhadas de verão... 

Viverão aqueles que souberem esperar,
Aspirar, inspirar
Num ritmo que seja próprio,
Que seja único... 

Unidos sem prazo,
Sem pressa ou atraso,
Pois o que não foi dito, dito está:
O passo para o infinito
Não está escrito
Nem proscrito nas linhas do tempo... 

Transparente como o vento
É a vontade de transgredir...
Você em sua tropa,
Eu em minha trupe,
Tropeçando por entre incertezas,
Riquezas do primeiro encontro! 

Ah, o encontro...
Dele se fizeram contos
Encantados e desatentos,
Naquela fração de segundo,
Sagrado, profano e profundo,
Desfazendo-se num piscar... 

De olhos fez-se olhares,
De palavras fez-se milhares,
 Em sim e em não... 

Fazer o mundo a partir de um grão
É saber que lá está o potencial
De toda uma vida:
Pra que, então, apressar?
Se é de gotas
Que se faz o mar... 

Brasília, 11 de setembro de 2012.