Utilizando...

Utilidade:
s.f. Qualidade de útil.
Objeto útil; emprego, uso, serventia.
Útil: adj. Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade. Que traz vantagem, proveito ou benefício;

Todos os textos aqui postados me foram úteis em alguma fase da vida. E têm uma utilidade atemporal, perpétua. Longe de pedir por aprovação ou pretenderem marcar o leitor em algum momento, estes textos desejam e objetivam a utilidade. Não pedem reconhecimento ou aplausos, amor ou ódio; A utilidade é livre para o pretexto, o texto que quiser. Querem, porém, seu respeito. Podem não ser de todo belos, éticos, saudáveis, proféticos. Mas pedem que, se utilizados, tenham sua autoria reconhecida, como um preço justo e nada caro. Leia, releia, use, utilize. Mas dê a eles o sobrenome, pois todos tem mãe.
Assim, faça deles o uso (ou a utilidade) que quiser.

Raquel Capucci


terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Mar


Após o sopro, o susto, o impulso,
A palavra:
Paciência!...
Amores se escrevem por linhas tortas,
Em labirintos com portas,
Em noites sonhadas de verão... 

Viverão aqueles que souberem esperar,
Aspirar, inspirar
Num ritmo que seja próprio,
Que seja único... 

Unidos sem prazo,
Sem pressa ou atraso,
Pois o que não foi dito, dito está:
O passo para o infinito
Não está escrito
Nem proscrito nas linhas do tempo... 

Transparente como o vento
É a vontade de transgredir...
Você em sua tropa,
Eu em minha trupe,
Tropeçando por entre incertezas,
Riquezas do primeiro encontro! 

Ah, o encontro...
Dele se fizeram contos
Encantados e desatentos,
Naquela fração de segundo,
Sagrado, profano e profundo,
Desfazendo-se num piscar... 

De olhos fez-se olhares,
De palavras fez-se milhares,
 Em sim e em não... 

Fazer o mundo a partir de um grão
É saber que lá está o potencial
De toda uma vida:
Pra que, então, apressar?
Se é de gotas
Que se faz o mar... 

Brasília, 11 de setembro de 2012.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Antes da Fala


Dentro do meu peito
Agora
Existem apenas palavras...
Ainda que não ditas,
Ainda que não escritas,
Ainda que mal-tratadas...
Todas, com certeza,
Soletram esse sentimento,
Uma falta de alento,
Um pulso de tormento,
Mas num alívio de páginas...

Num derramar de tinta
Sobre folhas e folhas
Da paisagem branca e gélida...
Nevando cristais de sonhos,
De sons,
De sopros,
A respiração antes da fala...

O que precisava ser dito,
Já foi dito...
Na literatura certeira do tempo,
Nos papéis da verdade,
Onde exposto está o que poderia
Ter sido um dia,
Mas não foi...

Já foi
Aquela sensação de paz...
Agora, ainda que tormenta,
Ainda que sedenta
Por algo que me alimenta,
Posso dizer que eu fui...
Fui com o Amor que ainda flui...
Mas não mais desliza
Calmamente pelas linhas da minha vida,
Pelas frases que eu não escrevi...

Viva!
Seu destino não está escrito!
Seu amor está mais do que dito!
Sua vontade suave
Fala a plenos pulmões!
Cante, e não diga!
Sonhe, e não sofra!
Ame, e não chore!
Mas diga,
Diga sim,
Com palavras,
Gestos,
Canções,
Suspiros,
Inspirações:

Eu amo!

Brasília, 01 de março de 2007.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Lenda de Baiurá






Aqui começa a história que vou lhes contar. Uma história que poderia acontecer ali bem próximo, ou em uma parte longínqua do Universo. Do tipo que poderia se repetir por milhões de vezes multiplicadas pelo número de estrelas, moldada como o ir e vir incessante das ondas do mar que transformam, pela insistência, pedras em areia.
Um alerta, porém. Prestem bastante atenção ao que aqui for contado, pois este é tipo de história que só se conta uma vez, ainda que se reverbere pela eternidade no pensamento de quem a ouvir. A condição de sua existência é que só poderá ser contada e ouvida uma vez por cada pessoa. E assim será. Portanto, atentem: Não devaneiem e não fujam aos detalhes.

Assim começa e termina esta história, pela incapacidade dos personagens, cujo gênio habita tais palavras proferidas, de abrir mão daquilo que julgavam ser mais caro em si mesmos. E tudo aquilo que lhes era mais caro em si mesmos, e na junção dos dois acabou-se criando algo maior do que poderiam imaginar.

Arati nasceu ao amanhecer. Bela, olhos atentos, natureza efusiva e contagiante desde tenra idade. Nascida com a luz, sendo a luz seu reinado durante a vida toda. Oriunda de uma família de artistas igualmente interessante, diurna, admiradores de sua terra, de sua origem, da natureza e da prosperidade. Filha da terra e do fogo, elementos que possuem forma própria e árduo processo de adaptação, mais preferem moldar o exterior para que ele se molde a si. Criada para ser sensível, amar a todos, enxergar a bondade em cada ser vivo... Mas não para revelar os mistérios do lado sombrio do mundo, ou do lado sombrio de si mesma. Não sabia o que era ser independente ou atentar sobre em quem confiar. Era menina enquanto menina, e menina enquanto mulher. Seu corpo mudava como a primavera e o verão, mas não aprendera a lidar com o outono e o inverno. Preocupou-se mais em cuidar dos desejos do seu coração do que aprender a lidar com a prática em questão. Em seus olhos o dia do céu azul e claro amanheceu, e assim ela cresceu...

Iúna era seu nome. Nascido do outro lado do mundo, em uma terra distante daquela onde havia luz. E foi no mais escuro da noite que sua alma adentrou sua carne e animou o corpo não mais inerte. Filho da água e do ar, que se moldam ao bel prazer do espaço e tempo, ou simplesmente escapam aos limites. Seu nascimento não foi muito festejado; não pelo fato de não ser ele desejado, mas por sua família não ser dada a grandes demonstrações, seja de afeto, de desafeto, de afetação. Falavam pouco, eram guerreiros silenciosos e calculistas. Como o gato que calcula o pulo instintivamente, dificilmente erravam o alvo. Não tinham muitos amigos, mas sua presença era bem-vinda em quase todas as outras tribos, vizinhas ou distantes. As estações, para Iúna, eram inverno, outono, primavera e verão, em ordem decrescente de importância. Sua vida era reticente, um grande ir e vir de emoções. Seu reinado era noturno, ainda que nada soturno. Oportuno era viver entre sonho e realidade, pois para ele entre eles não havia barreiras. Sua escolha era o impulso. E no compasso do seu pulso ele cresceu.

Foi sob a ausência de luz que se conheceram. Sob o torpor do sonho, sob o negrume que embaralha os sentidos, que dá vazão à própria imaginação, camufla os defeitos e os transforma em efeitos.

Iúna viu Arati como o raio destacado em meio ao total breu, e Arati viu Iúna como o eclipse subjugando a luz. Era uma festa dada pela família de Arati, em virtude do casamento de um dos membros que retornara vitorioso da batalha sobre o próprio orgulho. Um não conseguia tirar os olhos do outro. Nada mais em volta importava, brilhava ou obscurecia. Somente raio e eclipse, um em direção ao outro. Nascia a história de amor de Iúna e Arati.

Foram meses encontrando-se nos horários em que ambos estivessem plenos: o amanhecer e o anoitecer. Ao amanhecer era Arati que chegava antes que Iúna se fosse, e ao anoitecer era Iúna que vinha antes que Arati partisse. Trazidos e levados pela vontade de estar juntos, num só corpo. E assim foi gerado o filho do dia e da noite.

As famílias receberam a notícia como um grande acontecimento. Nunca a luz e a escuridão haviam se unido para gerar algo tão importante. Seria a concórdia, enfim, e a união feliz de terra, ar, fogo e água. A perfeita alquimia da criação. Iúna, Arati e o pequeno bebê, ainda no ventre da mãe, passaram a ficar fisicamente juntos por dias e noites completos.
Logo as diferenças de Arati e Iúna começaram a abater-se sobre a vontade de estar num só corpo. Os meses e estações se passavam, e Arati passou a se irritar com a sobriedade e inconstância de Iúna; as flores nasciam, as folhas caíam, e Iúna passou a se irritar com os arroubos passionais e a dependência de Arati. Afinal ela era a luz, ele a escuridão; ou tudo se transformava em luz, ou tudo virava escuridão... Era a única lógica que conseguiam enxergar. Mal sabiam os dois que dentro do ventre de Arati crescia justamente a lógica contrária àquele raciocínio egoísta.
O exercício de crescimento, ao passo que o bebê crescia, de Iúna e Arati não foi fácil; Arati chorava e desejava a luz, Iúna fugia e almejava a escuridão. Em pouco tempo, após o nascimento do bebê, a ruptura foi inevitável. Cada um apenas pensou em manter aquilo que julgavam ser mais caro em si mesmos, ignorando que a união entre os dois era a resposta que procuravam. Arati voltou para o seio de sua família, que com a língua ferina passou a desejar mal a Iúna, “o ignóbil filho da noite”. Iúna retornou para a família, que com o orgulho ferido passou a querer longe “a incompreensível filha do dia”. Todos sem entender o real sentido dos acontecimentos.
Baiurá, filho de Iúna e Arati, cresceu por três ciclos diurnos ou trinta e nove ciclos noturnos, conforme as contas das famílias. “Três primaveras”, contava Arati. “Três invernos”, contava Iúna. Era forte, belo, inteligente e intuitivo. Sua visão de criança parecia ir além do visível, do imóvel, do contável. Tudo lhe era palpável ao coração e à imaginação. Arati e Iúna encontravam-se para ficar com o menino, mas os encontros eram ao pleno dia, ou à ávida noite. Baiurá podia transitar por luz e escuridão com a mesma destreza e esperteza. Ainda assim, a aproximação era difícil, mas unida pelo desejo de estar num só corpo, o corpo de Baiurá.
Em um desses encontros, por não aguentar-se de paixão, Arati perguntou a Iúna, longe de olhos alheios:
- Se te pedisse para vir para minha terra para tentarmos ficar juntos de novo, tu virias? Como da vez que me pediste para ir para tua terra para ficar contigo? Não precisas me responder agora. Se achares que sim, vem. Estarei esperando ao amanhecer e ao anoitecer... Vem quando quiseres.
E assim, Arati esperava ao amanhecer, antes de Baiurá despertar, e ao anoitecer, depois de Baiurá dormir. Os anos se passaram, Baiurá cresceu e tornou-se homem... E Iúna não veio. Iúna não apareceu, nem ao amanhecer, nem ao anoitecer. Pensou durante todos aqueles anos sobre o que faria, em cada amanhecer e cada anoitecer seu coração tamborilava no peito, criando a música do anseio e da ansiedade. Mas ele não conseguia decidir por deixar o orgulho para trás. Ele não conseguia decidir sobre deixar o que era mais caro em si mesmo... Sem saber que se tratava apenas em abrir mão do que não mais lhe servia para unir suas forças a algo maior. Não conseguiu escolher... E o tempo escolheu por ele. Iúna casou-se de novo, mas não teve mais filhos.
Arati cansou de esperar, depois de muito, muito tempo. Casou-se de novo, com alguém que foi pai para Baiurá. Foi feliz por um tempo. Mas nunca amou como amou Iúna. Ambos agora conheciam o outro lado, ela a escuridão, ele a luz. Mas não conseguiram iluminar as virtudes ou apagar os medos de dentro de seu coração.
Certo dia chegou a hora de Arati juntar-se aos espíritos de seus ancestrais. Criara seu filho, fora feliz, tornara-se mulher, independente, consciente do bem e do mal. Não devia nada a ninguém.
No leito de morte, Arati pediu a seu filho:
- Chama teu pai.
Baiurá foi até a sala e chamou o marido de Arati. Ela então lhe confidenciou ao ouvido:
- Não, Baiurá... Chama TEU pai.
Em poucos minutos, Iúna chegou. Não foi preciso chamá-lo, ele sentira a energia de Arati se esvaindo. Chegou próximo ao leito com todo o respeito do mundo, e esperou que ela lhe falasse, com voz rouca.
- Iúna... Sei que fomos felizes enquanto estivemos juntos. E sei que só não fomos mais felizes porque não soubemos abrir mão de parte de nós mesmos, do orgulho que não nos cabia. Tu foste feliz do teu jeito, eu fui feliz do meu. Mas não fomos felizes, nós dois. Baiurá foi a concretização de uma união que poderia ter trazido eterna felicidade, mas foi nele que nosso amor se realizou. Antes de partir, quero pedir-lhe perdão. Perdão por não ter sabido amar além do amor, e perdoar-te por tu não teres sabido amar além do amor. E lamento por não termos aprendido juntos. Mas aprendemos pelo amor que temos por Baiurá. E essa é foi a remissão de nossas fraquezas. Baiurá foi o amar além do amor.
E, dito isso, respirou pela última vez. Iúna chorou ao lado do corpo inerte de Arati por dias e noites, sem se dar conta da passagem do tempo. As famílias se reuniram para retirar o corpo de Arati de seu bálsamo, e acharam Iúna deitado ao lado dela, também sem o sopro de vida.
Foram enterrados sob a árvore do meio do mundo, que unia as duas partes das terras onde estavam os povos, sendo instituído o amanhecer como o horário do fogo e o anoitecer como o horário da água. Baiurá recebeu dos deuses o direito de escolher um monumento celeste para seus pais, dando a Arati, o Sol, o reinado do dia, e Iúna, a Lua, o reinado da noite. A eles era permitido encontrar-se em determinados momentos, quando Iúna, a Lua, abria mão de parte de seu brilho. É por isso que, na Lua Nova, vê-se esse astro a transitar perto de Arati, o Sol, porém ainda sem se tocar totalmente... Pois a isso se atribuiu Baiurá.

domingo, 22 de julho de 2012

Cidades Inacessíveis


Cidade, cidadania, cidadão, todas são palavras com a mesma raiz etimológica, diz Aurélio. Mas concordemos que nem sempre felicidade está na raiz de se viver em aglomerados urbanos, mesmo que a sonoridade na rima pouco criativa ainda lhe caia bem.
Os seres humanos, desde sua evolução para seres altamente sociais, buscam o conjunto e a conjunção de forças e habilidades para segurança, proteção, aconchego. As cidades – e, em consequência, as grandes cidades – criaram-se dessa necessidade de união, sendo o Estado criado para garantir a qualidade mínima de vida de cada cidadão sob seu domínio.
Tudo muito lindo na teoria dos livros de História e para Aurélio, talvez. Mas, na prática da vida de cada pessoa que (sobre)vive nas cidades, não é bem assim. Cidades feitas para proteger, servir e aconchegar hoje oprimem. O que antes era pensado para permitir e facilitar o acesso de pessoas agora não passa de um aglomerado desenfreado de concreto vazio, de obras de arte arquitetônicas maravilhosas... Mas para quem mesmo?
Sou metade paulistana, metade brasiliense. Vivi numa São Paulo de paralelepípedos, pipas no céu, joelhos ralados e um bom punhado de carros. Já não havia muito verde nem planejamento urbano, mas era possível ir até um parque de bicicleta. Hoje em dia cada paulistano anda em seu carro na mesma velocidade do que nós em bicicletas: 14km/h - duas horas e meia todos os dias dentro de um carro, em média. E nem adianta reclamar do motorista da frente, o problema está na quantidade de veículos nas ruas (e cada um talvez com apenas o motorista dentro dele). Pouco ou nada é feito para mudar a situação. Talvez um túnel ou viaduto aqui e ali, onde ainda tiver terra ou céu para “enfeitar”. Paliativos eleitoreiros, nada mais. Soluções não vêm dos céus ou da terra, tão pouco das urnas.
Brasília, onde atualmente vivo e crio meu filho, segue rumo ao mesmo destino, com exceção de que, se tivermos um dia o mesmo tanto de gente do que São Paulo, estaremos vivendo “cada um no seu quadrado”, literalmente. Temos apenas duas grandes saídas da cidade, Norte e Sul. Pensando que todos (cada um no seu volante) vão e voltam no mesmo horário, e que o Plano Piloto absorve a maior massa de trabalhadores, em poucos anos teremos de morar dentro de nossos veículos.
Penso que Brasília, lindamente idealizada e construída por algumas personalidades “faraônicas” - megalomania é mera coincidência - teve em seu processo de criação um pensamento humanista e utópico como a nossa Constituição de 88. Maravilhosamente altruístas, belas, buscando o bem como princípio, a igualdade como fundamento, mas enfaixadas e imóveis feito uma múmia, igualmente inacessíveis. Lindas na teoria, mas carregando em si o medo da mudança pelo processo dispendioso para alterá-las, tanto Constituição quanto cidade. Brasília é tombada e leva tombos em sua função de servir e amparar pessoas. Nada pode mudar, e para mudar é preciso muito tempo, muito pensar, sendo montada feito um “Frankestein” arquitetônico. Semelhante à nossa amiga Constituição, uma verdadeira colcha de retalhos...
O que fazer para mudar a situação? Talvez olhar para a realidade ao invés de ficar olhando para um ideal, construir ouvidos nas paredes de concreto para escutar o que sua população deseja, sente, pensa. Quem sabe assim teremos cidades, efetivamente, com a mesma raiz de cidadão e cidadania, e onde possamos fincar as raízes de nossa feli(z)cidade. Aurélio que o diga...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Meu amado filho,


Estive arduamente pensando em como não começar estes escritos de uma forma piegas. É bem provável que, agora que você tem interesse e capacidade para ler e entender este texto, já tenha percebido que sua mãe, apesar de sonhadora e cheia de desejos, não é nada piegas, e também não muito convencional. Mas há um motivo por ser o início a flexão deste verbo tão almejado, e ao mesmo tempo tão temido por todos os seres humanos. Quero lhe dizer, meu filho, a respeito de algo que eu achava que conhecia, mas que só pude realmente saber depois de tê-lo comigo. Piegas? Pode ser, mas é a mais pura verdade, suscitada do sentimento mais sublime que alguém possa ter.

Claro que estou falando de Amar... E não só do Amor. Enquanto nome é assim predeterminado e bastante estático, eu diria. Mas como palavra de ação, transporta em si o movimento de que não é possível estagnar dentro das sensações que suscita. Não é possível dizer “eu te amo” sem que isso signifique um processo, e muitas pessoas proferem essa frase tão carregada de sentidos pensando em algo estanque como se, uma vez estando-se na condição de amar, ama-se para sempre. O que não é verdade, meu amado filho.

Não sou a pessoa mais indicada para falar sobre esse verbo transitivo, nem sobre sua condição intransitiva (conforme a linda obra de Mário de Andrade). Mas posso dizer que fui rondada por essa condição de Amar pela vida toda, assim como cada ser humano existente. É fato que nem todos têm a sorte de se dizer parte dessa atmosfera de transitividade, ou intransitividade, pois muitas pessoas a vivenciam pela sombra do sofrimento. Sinto-me, portanto, afortunada, especialmente pelo fato de ter aprendido - um pouco tarde em referência aos relacionamentos do passado, admito - que esse Amar muitas vezes trazido nas entrelinhas pelo discurso da sociedade, o Amar egocêntrico, o Amar mesquinho, o Amar que deve superar a tudo e se consolidar quase como uma instituição religiosa, não é o Amar que todos sentem, nem que todos deveriam sentir. É preciso muito, mas muito mesmo para que alguém possa dizer, genuinamente, que sabe o que é Amar.

Não pense, filho, que tudo que é feito e retratado em nome do Amar seja errado. Pelo contrário. Mas a verdade é que as pessoas por vezes banalizam o que sentem, engessam sua percepção, esquecem que a pessoa amada e nós mesmos mudamos a cada segundo, assim como nossas células se renovam. A natureza é intrinsecamente mutante e, como Amar é o verbo que melhor a representa, é ele também, portanto, mutante. Hoje posso amá-lo de um jeito, amanhã o amarei de outro, e ainda assim o amarei, mas respeitando o que é naquele momento. Sem querer cobrar-lhe com a famigerada frase: “Você não é mais a pessoa que eu amava”. Claro que não! Se esse alguém não é mais o mesmo e você não o ama mais, o problema talvez esteja no seu Amar, e não exatamente na pessoa amada.

Lembre-se, meu filho, que Amar não se refere somente a alguém externo. O Amor (Amar) próprio é uma das mais belas, e mais difíceis, formas que há de Amar. Difícil porque muitas vezes não conseguimos aceitar que nós também não somos mais os mesmos, que nós temos nossos momentos de amáveis e não tão amáveis, que fazemos bobagem, que erramos, que choramos lágrimas de desafetos e que, enfim, somos mutantes e imperfeitos. Aí está outra lição que o Amar nós ensina: o perfeito é um equilíbrio eterno a ser buscado. Ser perfeito não é um estado de graça, é uma busca de vida. E, se a busca levá-lo a se convencer de que ser imperfeito é que tem mais graça, assim seja! Afinal de contas, ninguém sabe o que significa realmente ser perfeito... Seja perfeito em sua imperfeição ou imperfeito em sua perfeição, meu filho.

Não quero me estender além das palavras que chegam aos seus olhos, ouvidos e pensamentos. Quero que descubra a sua própria forma de Amar, quando for a hora. Desejo que ame em proporções galácticas, que não se arrependa de Amar ou não Amar e que esse verbo o leve a ser consciente, lembrando-se que Ícaro tem asas de cera, ainda que o Sol seja belo e maravilhoso. Preserve suas asas para que possa alçar voos ainda maiores, meu filho.

Saiba, por fim, que tudo que foi dito aqui é mais uma declaração de Amor (Amar) do que um rol de dogmas a serem seguidos. Digo que aprendi tudo o que foi dito aqui pelo Amar que senti por você desde o primeiro dia que você entrou na minha vida, ainda que tivesse que repetir para mim mesma, nos momentos mais difíceis, o quanto eu amava, amo e amarei essa criatura mutante que você, meu filho, é e sempre será. E sua mãe sempre amará o alguém que você irá se tornar, pelo brilho nos seus olhos, pelo perfume dos seus cabelos, pela sua presença, enfim. A constância do Amar é a presença... O resto é a confirmação eterna de que Amar é aquilo que é em determinado momento, uma onda indo e vindo num mar sem fim.
Eu te amo, meu amado filho. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Parto


Parto...
Em minha coragem de partir
Rumo ao desconhecido.
Vasculhar o sonho perdido,
O segredo do eterno ir e vir...

Parir não é partir-se
Nem apartar-se de si:
É abrir-se para um além
do infinito dentro de mim,
começo, meio e fim...

Parir
É o morrer-se por vontade,
Para dar liberdade à alma que vem:
Não importa a forma
E sim o alguém,
Aquele novo ser formado
Amado e recriado dentro do ventre.
O acalento doce do útero da Mãe
Abrindo-se em perfeita entrega,
Amor e confiança...

Parto
Para fiar a vida.
Sou a parteira de meu próprio reviver,
E do viver de um ser ao qual me dedico.

Partir
Para o deixar de ser somente,
E ser uma e mais tantas,
E realizar o sacro ofício da doação.

Em um corpo de mãe,
No corpo da Mãe,
Prostrar-me em gratidão.
Por meu poder selvagem,
Por minha conexão com o eterno...

O segredo de revelar o sopro,
Soprar o Mistério,
Fluir
Material e etéreo,
Trazendo no cálice o elixir da vida.

Parto...
Porque parir é partir
Para outra dimensão.
Transcender,
Aprender,
Renascer...
Em amor e compaixão.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Perguntas que não deveriam ser feitas


Por que não deveriam ser feitas? Perguntam-se, neste momento, as leitoras e leitores desavisados. Parem de se perguntar, pois aqui não falaremos de respostas. O fato é, somente, que alguns se perguntam sem saber ao certo se querem ouvir uma resposta, ou se realmente estão preparados para ela, seja qual for. Exatamente por esse motivo, várias perguntas desnecessárias são feitas todos os dias. Prolixidade lançada ao ar sob a atmosfera de descuido. São perguntas demais, enviadas ao receptor sem a observação devida, que por vezes pairam órfãs no limbo das perguntas sem resposta. Portanto, parem já, ainda que isso gere ainda mais perguntas não respondidas neste minuto.

Por que não observar bastante e aprender a ouvir o inaudível, antes de lançar mais som sem significado no espaço? Perguntas retóricas, por exemplo, são um monólogo que deveria continuar interno. Quebra gelo? Não. Quebra silêncio, quebra raciocínio, quebra até a cabeça da conversa e dos conversadores.

Quais são as perguntas que não deveriam ser feitas? Eis uma pergunta difícil, mas pertinente. Ao ouvir de uma pessoa que se separou recentemente depois de anos de casamento, qual a primeira reação? – Nossa, mas por quê?! Eis uma pergunta que não deveria ser feita. As pessoas geralmente sabem (ou deveriam saber) quais os motivos para sair de um relacionamento, e na maioria das vezes são motivos que não deveriam ser explicados ou exemplificados a qualquer pessoa, principalmente uma que não se vê há muito tempo e que não é lá tão íntima assim. Não, não se deve fazer tal pergunta. Número um em prioridade da etiqueta das perguntas que não deveriam ser feitas. Lembrem-se sempre: As pessoas sabem os próprios motivos, e na maioria das vezes não pretendem falar sobre eles com mais alguém. Mas, uma ressalva: Ao ouvir a notícia, ao invés de perguntar, espere: se em trinta segundos a pessoa iniciar um discurso extenso sobre isso, escute. Em seguida, pergunte, sabendo que nesse caso a abertura foi dada. Assim, serão perguntas pautadas em solidariedade e companheirismo, não numa curiosidade egocêntrica de saber uma fofoca.

Mas não perguntar numa situação como essa é algo meio óbvio, não? Não. Se fosse óbvio, não teríamos tantas perguntas do tipo “Nossa, mas por quê?!” sendo ditas por aí.

É só isso? Na verdade, não. Existem várias outras perguntas que não deveriam ser feitas. Perguntar a alguém após saber da morte recente de uma pessoa querida, por exemplo. – Sério? Lógico que é sério, do contrário essa pessoa lhe diria que alguém que ela amava faleceu? – Mas o que foi que aconteceu? A não ser que essa pessoa confie muito em você e não sinta vergonha em chorar na sua frente, não pergunte isso. Responder sobre a morte de alguém é doloroso durante anos a fio, quanto mais num acontecido recente. Mais uma vez: espere, ouça, pergunte. Se continuar o silêncio: dê um abraço apertado e vá embora. Com certeza essa pessoa já entendeu o recado depois disso.

Está ficando meio repetitivo, você não acha? É, talvez. Entretanto, mais repetitiva é nossa mania de perguntar o tempo todo. – Por que você ainda não conseguiu engravidar? Outra pergunta indecorosa. Ou melhor, impiedosa. Se a pessoa está tentando ter um filho (passando da morte para a vida) sem sucesso, concorda que se ela mesma já soubesse os motivos de não engravidar a conversa seria totalmente outra? Ela com certeza já teria tido sucesso ao tentar engravidar, e teria te contado outra notícia. E sua pergunta, no caso, seria: Pra quando é? Essa é a pergunta gostosa de responder para quem sempre quis ser mãe.

- Você me ama? Certo, chegamos a um dilema. Um grande dilema, eu diria. Quando um silêncio prolongado pode ser fatal. Nesse caso, espere por uma resposta sincera que será dita em poucos milésimos de segundo, ou uma mentira que deixará qualquer um na ilusão da felicidade por algum tempo. Algum tempo... Do contrário, se o silêncio se prolongar por muito tempo, essa pessoa pode estar com problemas auditivos (pode acontecer... Por que não?)... Mas se o silêncio for seguido da pergunta que também não deveria ser feita: - Por que você está me perguntando isso? Talvez seja melhor ficar em silêncio e ir embora. Mas, dessa vez, sem o abraço.